quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

TORNAR-SE CRISTÃO

«Tornar-se cristão não é garantia de um prémio individual; não é a reserva privada de um bilhete de entrada no Céu, que nos permite olhar de cima para os outros e afirmar: «Tenho o que os outros não têm».
Tornarmo-nos cristãos não é algo que nos seja dado, para que nós, individualmente, o introduzamos num qualquer sistema e nos distanciemos dos outros, a quem isso não foi dado. Não: de certa forma, uma pessoa não se torna cristã para si própria, mas para o todo, para os outros, para todos. (...)

Tem de nos ser suficiente saber, na fé, que nós, ao nos tornarmos cristãos, nos colocamos à disposição para a prestação de um serviço para o todo. Desta forma, tornarmo-nos cristãos não é sinónimo de agarrar qualquer coisa só para nós; pelo contrário, significa deixar de lado o egoísmo, que só se conhece a si próprio e que só pensa em si próprio, e assumir a nova forma de existência daqueles que vivem uns para os outros. (...)

Ser cristão é essencialmente, e em primeira linha, a libertação do egoísmo daquele que vive só para si e o mergulho na grande orientação básica do estar à disposição dos outros. (...)

No fim, o movimento essencial da cristandade não é mais do que o movimento essencial do amor, no qual participamos no amor criador do próprio Deus

Joseph Ratzinger, em "Do sentido de ser cristão"

PERMANECER EM JESUS

«Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor (...)
Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (...)
Como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.» 
(Jo 15; 1-10)

"A tarefa mais importante do discípulo é permanecer em Jesus. A permanência é a condição para poder dar fruto. O ramo só pode dar frutos se permanecer preso à videira. Permanecer em Jesus significa ficar imbuído do espírito e do amor de Jesus. Assim como o ramo recebe a seiva da videira, assim flui dentro de nós o amor de Jesus manifestado na sua morte de cruz.

Trata-se de um permanecer mútuo. Nós devemos permanecer em Jesus. E então também Ele permanecerá em nós impregnando-nos com o Seu amor. E esse amor nos faz dar frutos. O verdadeiro fruto não consiste em grandes feitos exteriores, ele se mostra, isso sim, no amor que passamos a irradiar. Tudo o que fazemos só será fecundo se levar a marca do amor."

Anselm Grün, em "JESUS - Porta para a Vida"

domingo, 1 de agosto de 2010

ENCONTRAR DEUS NAS DIFICULDADES

«Nós encontramos Deus no meio daquilo que nos acontece, que nos agride, sejam os irmãos, que nos fazem mal, seja a própria sombra, que nos ataca.
É na rotina diária que se decide se o indivíduo se torna amargo e duro, pelas frustrações da vida, ou se opta por se abrir a Deus, deixando-se modificar pelo seu Espírito. (...)

A raiva perante a injustiça e perante situações adversas torna-nos cegos para as hipóteses de solução que se escondem nas dificuldades da vida. (...)
Quando as situações adversas são vividas à luz de Deus, esta luz altera os nossos sentimentos e dá-nos força interior. (...)
É nos problemas e dificuldades que arrasto comigo que me encontro com Deus, que actua em mim e me modifica.»

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

terça-feira, 27 de abril de 2010

O QUE É QUE ME VALORIZA?

Todas as pessoas têm o seu valor, porque são criaturas de Deus. (...)

Valoriza-me o facto de ser humano, de ter sido criado por Deus e por Ele escolhido.
E valoriza-me o facto de existir em mim qualquer coisa que pertence apenas a mim.
Ninguém sente as coisas da mesma maneira que eu.
Ninguém fala da mesma maneira que eu.
Ninguém respira da mesma maneira que eu.
Não devo ver o meu valor apenas naquilo que eu consigo fazer.
As minhas capacidades fazem parte do meu valor, mas não o esgotam. Apenas têm valor como parte da minha pessoa, que é única, e em que o próprio Deus se revela. (...)

O valor e a dignidade das pessoas consiste no facto de Deus ter criado o Homem à sua imagem e semelhança.
No ser humano resplandece, portanto, o rosto de Deus. É essa a mensagem da Bíblia.

Para os cristãos, isso teve, mais uma vez, outro aprofundamento, devido ao facto de Deus ter encarnado em Jesus de Nazaré.
Se acreditarmos nisso, vemos em cada rosto humano o rosto de Jesus Cristo. (...)
O facto de existir em nós uma vida divina, um espírito divino e um amor divino, constitui a mais profunda das nossas dignidades.

Anselm Grün, em "O Livro das Respostas"

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

PERMANECER EM JESUS


"Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor (...)
Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (...)
Como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor." (Jo 15; 1-10)

"A tarefa mais importante do discípulo é permanecer em Jesus. A permanência é a condição para poder dar fruto. O ramo só pode dar frutos se permanecer preso à videira. Permanecer em Jesus significa ficar imbuído do espírito e do amor de Jesus.
Assim como o ramo recebe a seiva da videira, assim flui dentro de nós o amor de Jesus manifestado na sua morte de cruz.
Trata-se de um permanecer mútuo. Nós devemos permanecer em Jesus. E então também Ele permanecerá em nós impregnando-nos com o Seu amor. E esse amor nos faz dar frutos. O verdadeiro fruto não consiste em grandes feitos exteriores, ele se mostra, isso sim, no amor que passamos a irradiar.
Tudo o que fazemos só será fecundo se levar a marca do amor."

Anselm Grün, em "JESUS - Porta para a Vida"

terça-feira, 14 de julho de 2009

SÊ VERDADEIRO PERANTE DEUS

«Muitos queixam-se que não experimentam Deus na oração. Uma razão importante pela qual não experimentam Deus é porque eles não se experimentam a si mesmos. Eles oferecem a Deus apenas o seu lado piedoso. Mas escondem de Deus tudo o que é reprimido. Então, a sua oração não se pode tornar vida. Pois tudo aquilo que nós eliminamos, falta-nos em vivacidade. 

Quando escondemos algo de Deus, entre Deus e nós não há fluxo. Sentimo-nos diante de Deus vazios e bloqueados.
Rezar significa elevar a Deus tudo o que há em nós; exprimirmo-nos diante de Deus. Rezar é sempre o caminho do autoconhecimento e do contacto connosco mesmos. Quando elevo a minha verdade a Deus, pressinto quem é Deus e quem eu sou.»

Anselm Grün

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ENCONTRAR DEUS NAS DIFICULDADES

Nós encontramos Deus no meio daquilo que nos acontece, que nos agride, sejam os irmãos, que nos fazem mal, seja a própria sombra, que nos ataca.
É na rotina diária que se decide se o indivíduo se torna amargo e duro, pelas frustrações da vida, ou se opta por se abrir a Deus, deixando-se modificar pelo seu Espírito(...)

A raiva perante a injustiça e perante situações adversas torna-nos cegos para as hipóteses de solução que se escondem nas dificuldades da vida. (...)
Quando as situações adversas são vividas à luz de Deus, esta luz altera os nossos sentimentos e dá-nos força interior. (...)
É nos problemas e dificuldades que arrasto comigo que me encontro com Deus, que actua em mim e me modifica.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A RELAÇÃO COMIGO PRÓPRIO

Não devemos dar ouvidos à auto-suficiência, mas sim à vontade de Deus, ou seja, não devemos ficar pelos nossos desejos e necessidades, mas pesquisar profundamente em nós até encontrarmos o ponto em que possamos ficar em harmonia com a vontade de Deus. Este é também o ponto em que entramos em contacto com a nossa realidade essencial, com o nosso ser mais interior. Há diversas vozes dentro de nós. Uma delas é a voz superficial que São Bento relaciona com a própria vontade: «Agora, eu quero ir ali, quero ter isto, preciso disto sem falta, ou não quero aquilo que me irrita...»

Quando nós mergulhamos suficientemente em nós, em espírito de oração, descobrimos uma outra voz que se identifica com o nosso ser interior. É a voz de Deus. É a vontade de Deus.
A vontade de Deus não é algo estranho que nos abafa, é antes a expressão mais genuína daquilo que a nossa vida, a nossa liberdade, a nossa sinceridade querem. Só quando nós vivemos da vontade de Deus, da nossa verdade interior, é que a nossa vida vale a pena. A ligação com o nosso ser puro é condição para podermos experimentar Deus.

Quanto mais pesquisarmos a fundo em nós, mais reconheceremos que não vivemos em nós mesmos mas em Deus; que Deus nos chamou para formar a sua imagem em nós. E o nosso chamamento interior só é verdadeiro quando sentimos esta imagem de Deus em nós, quando escutamos o apelo da sua vontade a nosso respeito.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

terça-feira, 9 de junho de 2009

A RELAÇÃO COM DEUS

A nossa vida só se torna pura quando está ligada a Deus, a nós mesmos e àqueles que nos rodeiam. 
Muitos psicólogos pensam que as doenças do nosso tempo se devem à falta de ligações. Muitas pessoas não estão ligadas a nada: nem a Deus nem aos outros. São incapazes de estabelecer relacionamentos. (...)

Quando o homem tem dificuldade em se relacionar, a sua vida fica desorientada, ele perde o seu centro, o seu ponto de apoio.

No primeiro degrau trata-se da relação com Deus. Ela é o pressuposto para a nossa vida. Só nos podemos tornar puros, quando todos os nossos pensamentos e sentimentos estão ligados a Deus. (...)

Em tudo devemos estar ligados a Deus. Deus olha para nós. Vivemos sempre à frente dos seus olhos. Ele fita-nos com amor infinito, mas que também nos examina e nos chama à verdade interior. (...)
São Bento acredita que Deus está presente nos nossos pensamentos. Nós podemos encontrá-Lo se prestarmos atenção aos nossos pensamentos e sentimentos. Tudo o que se move no nosso coração tem a ver com Deus e com a nossa relação com Deus.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A PORTA ESTREITA - Caminho da Purificação (2ª parte)

Franz Kafka conta a história de um homem que queria atravessar os portões de um castelo. Mas o porteiro impedia-o. Ele esperou diante da porta até ficar velho e doente. Quando estava a morrer, o porteiro fechou o portão dizendo: «Este portão era destinado só a ti.»

Há muitas pessoas que, durante toda a sua vida, não atravessam a porta que as conduz à vida. Preferem outras. Ou então têm medo de atravessar a porta estreita. Elas receiam os esforços, o ter de incomodar o porteiro até que ele as deixe passar. A porta estreita não é a porta do trabalho, mas porta que está destinada só para mim.Para atravessar esta porta preciso de me desfazer das ilusões que fiz de mim.

O caminho espiritual, como São Bento o entende, liberta-me de todo o lastro que eu transporto comigo, para poder entrar pela porta estreita para o caminho da purificação, o caminho que me conduz à pureza, o caminho no qual eu me torno eu próprio.Este caminho conduz-me à plenitude.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

terça-feira, 2 de junho de 2009

A PORTA ESTREITA - Caminho da Purificação (1ª parte)

São Bento, na sua famosa Regra , não deseja impor nada duro e difícil aos monges. Quando a vida numa comunidade monástica parece por vezes dura, então ele encoraja: «Não te deixes perturbar pelo medo e não fujas do caminho da purificação; no início ele pode parecer estreito. Mas quem progride na vida monástica e na fé, verá o seu coração tornar-se largo, enquanto percorre o caminho dos mandamentos de Deus na alegria indizível do amor» (Prólogo 48)

O caminho da purificação, no qual nos tornamos puros e completos, está em conformidade com «o caminho estreito» de que falava Jesus (Mt 7, 13). O caminho largo é o caminho que todos percorrem.O caminho estreito é o caminho em que vivo todas as minhas vocações pessoais, em que vou crescendo na imagem que Deus pensou para mim. Para encontrar o meu próprio caminho tenho de atravessar a porta estreita que me foi destinada para chegar à plenitude.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

quinta-feira, 28 de maio de 2009

CONSTRÓI SOBRE A ROCHA


«Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha. E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa; contudo não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve estas minhas palavras, e não as põe em prática, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa, e ela caiu; e grande foi a sua queda.» (Mateus 7, 24-27)

A parábola da casa na rocha é utilizada num sermão de João Crisóstomo, como prova da sua tese: «Ninguém te pode magoar a não ser tu mesmo.» Aquele que constrói a sua casa na rocha não pode ser prejudicado pelas tormentas interiores e exteriores. As tormentas de emoções que correm para ele não o magoam. As pessoas que lutam contra ele, que o difamam, que intrigam contra ele, não têm qualquer poder sobre ele. A sua casa permanece de pé. O seu fundamento não está em ser amado pelos homens, mas por Cristo. (...)

Jesus está convencido de que as tormentas e marés não nos podem fazer mal se nós tivermos construído a nossa casa na rocha das suas palavras. (...)

Quando construímos a nossa casa em Cristo, encontramos o caminho para a verdadeira vida, então aprendemos a ter prazer na vida, sempre e em todo o lado, mesmo nas tormentas que nos assaltam, mesmo nas marés de emoções que se abatem sobre nós diariamente. Cristo, como fundamento da casa da nossa vida, oferece-nos segurança e liberdade, tranquilidade e serenidade, em todos os contratempos da vida.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

sexta-feira, 15 de maio de 2009

OBEDIÊNCIA

Obediência significa sempre ter liberdade interior face a hábitos e prisões, liberdade em relação à opinião dos outros. O nosso coração só deve deixar-se influenciar por Deus.
Obediência pressupõe liberdade e procura, que é, ao mesmo tempo, a liberdade de que nós precisamos para encontrar Deus verdadeiramente. (...)

Jesus seguiu de forma tão clara a voz interior do seu coração que não se deixou deter pelos homens e pela sua rejeição.
A obediência significa lucidez interior, esta abertura para a voz de Deus que nos chama para a nossa verdadeira imagem e para a nossa mais profunda determinação.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

quinta-feira, 14 de maio de 2009

PUREZA DO CORAÇÃO

Segundo João Cassiano, "a pureza do coração significa liberdade de todas as perturbações egoístas dos nossos actos espirituais. Quem tem o coração puro não utiliza Deus para si próprio, não se coloca acima de ninguém. Pureza significa abertura total a Deus, é o ser penetrado pelo espírito de Deus. E a pureza do coração, para Cassiano, significa, em última instância, amor.

O pressuposto fundamental de toda a oração é o amor. Quem ama reza. E a oração deve conduzir-nos ao amor, de forma a que o nosso coração seja cada vez mais preenchido e modificado pelo amor de Deus.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

terça-feira, 12 de maio de 2009

A DOÇURA DO AMOR

O coração grande é uma condição para a experiência da vida verdadeira. A outra marca é a alegria indizível do amor. Em latim está escrito: «inenarrabili dilectionis dulcedine = a indescritível doçura do amor.» (...)

«Dulcedo» é para os latinos o mesmo que o amor. O amor é doce. Tem um sabor doce.
Os latinos sabiam que o amor ao homem empresta outro sabor, ao contrário do ódio que faz o homem amargo. Para os latinos, a sabedoria está no sabor (Sapientia). Quem saboreia a essência, é sábio. Quem ama sente um sabor doce e agradável, um sabor amoroso. Quem ama saboreia a vida.

Na tradição espiritual, a «dulcedo Dei = A doçura de Deus» desempenha um papel importante. A experiência de Deus deixa no homem um sabor doce. A «dulcedo Dei» relaciona-se sempre com a experiência interior de Deus nos próprios corações.
Deus não é o sentimento. Mas deixa os seus vestígios no sentimento. Não conseguimos ver Deus, mas podemos saboreá-lo. O sabor doce é a experiência mais profunda de Deus que nos é possível. 

Para o papa São Gregório Magno, a doçura interior é fruto da contemplação. Ele diz que a alma não existe sem alegria. A alegria indestrutível é a alegria espiritual. Na contemplação, a alma é penetrada por uma doçura inenarrável. São Bento entende esta doçura da experiência de Deus, quando se refere à inenarrável «dulcedo» do amor.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

domingo, 10 de maio de 2009

CORAÇÃO GRANDE

São Bento adopta a imagem do coração grande dos Padres da Igreja.Ambrósio pensa que apenas o coração grande oferece espaço a Deus para lá morar. E Cassiano está convencido de que apenas um coração grande pode alcançar a serenidade e encontrar a paz interior.
A pessoa com um coração pequeno torna-se cobarde e impaciente. Quando a cascata de agressões e depressões correm para o coração pequeno, ele é inundado por elas. Quando o coração se tornou grande através do amor, as marés de emoções rapidamente fenecem nele.

Só um coração grande pode experimentar a abundância da vida. Um coração pequeno é demasiado estreito para a riqueza da vida. Fechar-se-á com medo das normas de conduta, em vez de se entregar à vida.

Santo Agostinho fala do amor e da alegria que torna o coração grande. São Bento encontrou a expressão do coração grande certamente no Salmo 119, 32. São Bento gosta deste salmo.
Quem reflecte sobre os mandamentos de Deus, quem medita no amor de Deus, verá que o seu coração se torna grande. Quem realmente experimentou Deus, recebe um coração grande. O coração grande é sinal de verdadeira espiritualidade.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

quinta-feira, 7 de maio de 2009

ACEITAR A NOSSA HUMANIDADE

O paradoxo cristão está em subir até Deus enquanto desce à própria realidade. Só quando alguém se encontra a si próprio, é que se encontra com Deus. Sem haver um autoconhecimento sincero, limitamo-nos a lidar com as nossas próprias projecções e nunca com o verdadeiro Deus. (...)

Só quem tem a coragem de aceitar as suas limitações terrenas, a sua humanidade, poderá subir e ter acesso à contemplação de Deus. (...)

No caminho até Deus encontro o meu próprio lado sombrio, os meus abismos, as minhas paixões, as minhas necessidades e emoções.
Quem se eleva a si próprio, deseja ultrapassar a sua realidade psíquica. Deseja, através de um «bypass espiritual», utilizar Deus para se afastar da sua própria realidade, mas vai parar a um beco sem saída. Nunca chegará a Deus, alcançará apenas a imagem que fez de si próprio e de Deus.

Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da espiritualidade"

terça-feira, 5 de maio de 2009

O CAMINHO DA HUMILDADE (2 ªparte)

O objectivo do caminho interior é o amor-perfeito, que expulsa todo o medo. O caminho da humildade conduz acima da humilhação, até ao amor a Deus que nos eleva e nos puxa para si. 

São Bento descreve o fim do caminho da humildade com palavras semelhantes às de João Cassiano. «Se tu és verdadeiramente humilde, a tua humildade conduzir-te-á imediatamente a um nível superior, ao amor que não tem medo de nada. Então, começarás naturalmente, sem qualquer esforço, a seguir tudo aquilo que antigamente observavas com medo da punição, sem ter mais em vista a punição ou qualquer outro medo, mas por amor à bondade como tal, e por alegria pelas virtudes»(Cassiano 49). Para Cassiano, o amor é o objectivo do caminho espiritual e o fruto da pureza do coração. (...)


O objectivo da humildade é, portanto, espiritual, e não moral. Não diz respeito a uma virtude, tem a ver com a capacidade para a contemplação, com a oração pura, através da qual devemos estar em união com Deus. (...)

O caminho espiritual corresponde à nossa essência interior. (...)

A humildade trouxe-nos calma através do contacto com a nossa própria realidade, com a nossa natureza criada por Deus. Quando estamos em contacto com a nossa verdadeira essência, encontramos sozinhos o caminho para Deus. Então não é necessário mais nenhum mandamento e nenhuma pressão exterior. (...)


Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

domingo, 3 de maio de 2009

O CAMINHO DA HUMILDADE (1ª parte)

Gregório de Nisa pensa que o Homem só pode imitar Deus através da humildade. Por isso, a humildade é o caminho para a adaptação a Deus. (...)

Para a Igreja primitiva, a humildade é essencialmente uma atitude religiosa em que se procura padrões de semelhança com Cristo.

São Bento vê o exercício da humildade como imitação de Cristo, como crescimento interior em Jesus Cristo. Ele vê a humildade como caminho de exercício para o amor perfeito, para a unificação com Deus na contemplação. (...)


A humildade conduz os homens ao prazer de estarem vivos, na sua força, na sua vida transformada pelo Espírito de Deus. 
O objectivo do caminho da humildade não é, por isso, a humilhação dos homens, mas sim a sua elevação, a sua metamorfose através do Espírito de Deus, que os penetra totalmente e se converte em prazer, nesta sua nova qualidade de vida. (...)


Subir até Deus é o objectivo de todo o percurso espiritual. O paradoxo de uma espiritualidade construída a partir de baixo, tal como São Bento a descreve, é que, através da descida à nossa realidade humana, subimos a Deus.


Anselm Grün, em "Bento de Núrsia - Mestre da Espiritualidade"

domingo, 19 de abril de 2009

ORAÇÃO E ACÇÃO (Anselm Grün)


"A oração deve ser um momento e um meio de libertar forças, ligadas ao centro de nós mesmos, para as pôr ao serviço dos irmãos." (Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

«A oração deixa-nos sensíveis para aquilo que devemos fazer. Sem oração, a nossa acção torna-se frequentemente cega e pode resultar num activismo sem significado. A oração indica-nos onde nos devemos comprometer e de que forma é que a nossa acção faz sentido.(...)

O próprio Jesus nos mostrou, na conhecida história de Marta e Maria, que precisamos de ambos os pólos, da acção e da contemplação (Lc 10: 38-42).
Tal como Marta, devemos deitar mãos à obra onde for necessário. Devemos ser hospitaleiros para com os nossos convidados e cuidar deles. Mas também é preciso que exista em nós a Maria, que arranja tempo para se sentar simplesmente aos pés de Jesus e para ouvir o que Ele tem para lhe dizer. 

Se não tirarmos mais tempo para a oração, para o silêncio, para ouvirmos e reflectirmos, não nos apercebemos de que não estamos a responder ás verdadeiras necessidades dos seres humanos com a nossa acção. Existe então o perigo de estarmos a circular apenas à volta de nós mesmos e da nossa reputação.

Queremos apenas dar provas de nós mesmos é um comportamento que também não dá frutos para os outros. Para que a nossa acção seja frutífera, precisa do retrocesso para a oração, a contemplação e o silêncio. Mas isso é uma coisa completamente diferente de uma autofuga ás verdadeiras exigências da vida.»

(Anselm Grün, em "O Livro das Respostas")

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O OBJECTIVO DA MINHA VIDA

"O objectivo da minha vida é que o meu ego deixe de bloquear a imagem original e genuína de Deus, que existe dentro de mim, e que eu permaneça sempre permeável ao seu Espírito.

Tenho confiança de que a minha vida se tornará uma bênção para outras pessoas, de que eu próprio me tornarei uma bênção, se deixar de circular, de forma egocêntrica, à volta do meu próprio sucesso ou de me fixar no meu próprio resultado. Só então serei verdadeiramente livre. Nessa altura, serei verdadeiramente capaz de amar. (...)

Pressinto que o meu objectivo é ser totalmente eu próprio, ser totalmente aquilo para que Deus me designou, sem utilizar Deus a meu favor e sem querer dar provas de mim a mim mesmo.

O meu objectivo é, portanto, tornar-me aquele que sou com origem em Deus, e gerar lucros, tal como Jesus prometeu àqueles que n´Ele permanecem e junto de quem Ele permanece.

E eu sei que só serei verdadeiramente produtivo quando abandonar o meu ego e me tornar totalmente permeável ao amor. Um amor que brota em mim para correr através de mim na direcção dos outros e os alegrar."

(Anselm Grün, em "O Livro das Respostas")

O In-comparável

"Deus nunca será propriamente um objecto de inteligência, porque nada há na mente que não haja previamente passado pelos sentidos. Como não pode ser objecto directo de inteligência, o Senhor é, em compensação, objecto de fé. Só na fé Ele pode «ser entendido» cabalmente. (...)

Deus «entende-se» de joelhos: assumindo-O, acolhendo-O, vivendo-O. (...)
O difícil e necessário é deixar-se conquistar por Ele. (...)
O verdadeiro crente entrega-se na escuridão e só então começa a entender o mistério e nasce a certeza.


Deus é completamente diferente das nossas ideias, conceitos e preconceitos, representações e imagens. Diz Santo Agostinho:

«Julgas saber o que é Deus? Julgas saber quem é Deus? Não é nada do que imaginas, nada do que o teu pensamento abarca.
Ó Deus que estás acima de todo o nome, acima de todo o pensamento, para além de qualquer ideal e de qualquer valor, ó Deus vivo.»


O Senhor é muito maior, muito mais admirável e magnífico que tudo o que possamos conceber, sonhar, desejar, imaginar. Realmente Ele é o In-comparável.

Deus só se assume na fé. Mais do que objecto de inteligência, é objecto de contemplação.


Na noite profunda da fé, quando a alma, como terra cega e sedenta se abre docilmente à acção divina e acolhe o Mistério Infinito como chuva mansa que cai e inunda e fecunda..., só assim, entregues, receptivos, começaremos a «entender» o Ininteligível.»

Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Homem

«Com o facto da Encarnação renunciou a todas as vantagens de ser Deus e submeteu-se a todas as desvantagens de ser homem...

...Aceitou-se a si mesmo como homem; e aceitou-se sem evasões nem compensações, sem recorrer à Sua divindade para utilidade própria; fê-lo sim, mas para utilidade dos outros. Foi totalmente fielao homem.
Nunca «atraiçoou» a Sua condição humana. 
Tudo isso está expresso quando a Escritura diz que Jesus «desceu» até à condição de servo, feito igual a qualquer homem (Flp. 2, 5 ss).»

Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

FAZER-SE CRIANÇA



"Se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no reino dos céus.» (Mt. 18: 1-4)
"Permanecer criança é reconhecer o seu próprio nada, esperar tudo de Deus, como um menino espera tudo do seu pai...Ser pequeno significa não atribuir a si mesmo as virtudes que se praticam, acreditando-se capaz de alguma coisa, mas reconhecer que Deus põe esse tesouro da virtude na mão da criança; mas é sempre tesouro de Deus". (Santa Teresa de Lisieux)
"... essa simplicidade de alma, esse terno abandono na majestade divina é a meta da nossa vida, que queremos alcançar, ou voltar a encontrar se alguma vez a conhecemos, pois é dom da infância, que muito amiúde não lhe sobrevive".(G. Bernanos)
"Salvar-se, segundo Jesus, é fazer-se progressivamente criança.
A criança é um ser essencialmente pobre e confiado, confiado porque sabe que à sua debilidade corresponde o poder de alguém; numa palavra, a sua pobreza é riqueza.

Por si, a criança não é forte, nem virtuosa, nem segura. Mas é como o girassol que todas as manhãs se abre para o sol; dele espera tudo, dele recebe tudo: calor, luz, força, vida."

(Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Deixando de rezar, Deus acabará por ser «Ninguém»

Se deixarmos de rezar por muito tempo, Deus acabará por «morrer», não em Si Mesmo, porque é substancialmente Vivo, Eterno e Imortal, mas no coração do homem. 
Deus «morreu» como uma planta ressequida que não foi regada.

Abandonada a fonte da vida, chega-se rapidamente a um ateísmovital. Aqueles que chegam a esta situação, talvez não tenham proposto formalmente o problema intelectual da existência de Deus. Continuam a sustentar, talvez sentindo também, que a «hipótese» Deus é sempre válida, mas ajeitaram-se a viver como se Deus não existisse. Quer dizer, Deus já não é a Realidade próxima, concreta, arrebatadora. Já não é aquela Força Pascal que os tirados recônditos dos seus egoísmos, para os lançar num pérpetuo «exôdo» para um mundo de Liberdade, Humildade, Amor, Comprometimento. Sobretudo, eis o sinal inequívoco da agonia de Deus: o Senhor já não desperta Alegria no coração!

Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Quanto menos se reza, tanto «menos» Deus é Deus em nós

À medida que menos se reza, Deus vai-se esfumando num apagado afastamento. Lentamente vai-se convertendo em simples «ideia» sem sangue e sem vida. Não «dá gosto» estar, tratar, viver com uma «ideia»; também não há estímulo para lutar e superar-se. Assim, Deus vai deixando de ser Alguém e termina por diluir-se numa realidade ausente e longínqua.

Uma vez que nos deixamos cair nessa espiral, Deus lentamente deixa de ser Recompensa, Alegria, Delícia... e cada vez menos se «conta» com Ele. Assim, surge uma crise e já não se recorre a Deus, porque é uma palavra que já «significa» muito pouco para nós. Recorremos a meios psicológicos, ou simplesmente somos arrastados pela crise. (...)

Quando começa a faltar o centro de gravidade de uma vida e ao mesmo tempo se vão abrindo enormes vazios no interior, surgem as compensações humanas como mecanismos de defesa pela lei das mudanças. Com que finalidade? Para cobrir os vazios e escorar o edifício. O edifício chama-se sentido da vida ou também projecto de uma existência. 

Quanto menos se reza, menos Deus tem sentido, e quanto menos sentido tem Deus, menos se recorre a Ele. Já não podemos sair da espiral da morte.

Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

terça-feira, 19 de maio de 2009

Quanto mais se reza, «mais» Deus é Deus em nós

«Deus não muda. É o definitivamente Pleno, portanto, Imutável. Está, pois, inalteravelmente presente em nós, e não admite diferentes graus de presença. O que realmente muda são as nossas relações com Ele, conforme o nosso grau de fé e amor. A oração torna mais firmes essas relações, produz uma penetração mais entranhável do Eu-Tu através da experiência afectiva e do conhecimento fruitivo, e a semelhança e união com Ele chegam a ser cada vez mais profundas.

Acontece como um archote dentro de uma sala escura. Quanto mais o archote alumia, melhor se vê a feição da sala, a sala faz-se «presente» ainda que não tenha mudado.

Podemos provar pela experiência que, quanto mais profunda é a oração, mais sentimos a presença de Deus patente e vivo. E quanto mais resplandece a Glória do Rosto do Senhor sobre nós, mais os acontecimentos ficam envoltos em novo significado e a história fica «povoada» por Deus. Numa palavra, o Senhor faz-se «vivamente presente» em tudo.

Quando alguém já «esteve» com Deus, Ele cada vez mais vai sendo «Alguém» por quem e com quem se superam dificuldades e de vencem as repugnâncias (estas convertem-se em doçuras).
Assumem-se com alegria os sacrifícios, nasce em toda a parte o amor. 
Quanto mais se «vive» com Deus, mais vontade há de estar com Ele, e quanto mais se «está» com Deus, Deus é cada vez mais «Alguém». Abriu-se o círculo da vida.

Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

DESPOJAR-SE (2ª Parte)

«O único «deus» que pode disputar com Deus o Seu reinado sobre o coração do homem é o próprio homem (entendo-se por homem o«homem velho» enroscado sobre si mesmo, com as suas loucas ânsias de se apropriar de tudo e de exigir toda a honra e toda a adoração).

No fundo, ocorre um mistério trágico: o nosso «eu» tende a converter-se em «deus». Isto é: o nosso «eu» reclama e exige culto, amor, admiração, dedicação e adoração a todos os níveis, que só a Deus são devidos.(...)
Quando o interior do homem está liberto de interesses, propriedades e desejos, Deus pode estar nele sem dificuldade. Ao contrário, na medida em que o nosso interior está ocupado pelo egoísmo, não há já lugar para Deus. É um território ocupado.

Assim chegamos a compreender que o primeiro mandamento é idêntico à primeira bem-aventurança: quanto mais pobres, desprendidos e desinteressados somos, «mais» Deus é Deus em nós.Quanto mais somos «deus» para nós mesmos, «menos» Deus é Deus em nós. O plano está, pois, muito claro: «importa que Ele cresça e «eu» diminua» (Jo. 3, 30).» (Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

DESPOJAR-SE


«Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus!» (Mt. 5,3)

«À medida que o homem se vai fazendo pobre, despojando-se de toda a apropriação interior e exterior, e isto feito em função de Deus, automática e simultaneamente começa o Santo Reino de Deus a desenvolver-se no seu interior.
Se Jesus disse que o primeiro mandamento contém e esgota toda a escritura (Mt 22, 40), nós podemos acrescentar paralelamente que a primeira bem-aventurança contém e esgota todo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A libertação caminha, pois, pelo caminho da pobreza. O Reino é como um eixo extraordinariamente simples que atravessa toda a Bíblia movendo-se sobre dois pontos de apoio: o primeiro mandamento e a primeira bem-aventurança (Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

GRATUIDADE

«Deus é o Manancial onde tudo nasce e tudo se consuma. É o poço inesgotável de toda a vida e graça. Tudo dispõe e dispensa segundo o seu beneplácito. No dinamismo geral da Sua economia, uma só direcção existe: a de dar. (...)

As relações com Ele não são da natureza das nossas relações humanas. Nas nossas inter-relações há contratos de compra e venda, trabalho e salário, mérito e prémio. Na relação com Deus nada disso existe. Há apenas oferta, graças, dádiva. Ele é doutra natureza: Ele e nós estamos em órbitas diferentes.(...)

Ninguém pode questionar a Deus, dizendo: Que é isso, Senhor? A este que trabalhou uma hora, estás a pagar-lhe o mesmo salário que a este outro que carregou com o peso do dia? Ele vai responder: O que dei a este e a esse não é salário mas presente, e do que é meu posso fazer o que achar conveniente.

Neste reino, continua Deus, não existe o verbo pagar nem o verboganharAqui nada se paga porque nada se ganha. Tudo se recebe. Tudo é oferta e graça.(...)

Se as almas que empreendem a subida para Deus(...) não começarem por dar-se conta e aceitar com paz a natureza gratuita e desconcertante de Deus, vão afundar-se muitas vezes na mais completa confusão. A observação da vida levou-me à conclusão de que a razão mais frequente do abandono da oração é esta: na vida com Deus, a muitos, por vezes, tudo lhes parece tão sem sentido, tão sem lógica, tão sem proporcionalidade, que acabam por ter a impressão de que tudo é irreal, irracional... e deixam tudo.

Quem quiser alistar-se entre os combatentes de Deus, tem de começar por aceitar esta realidade primária: Deus é assim: gratuidade.» - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

domingo, 20 de julho de 2008

A Revelação de Jesus

"Não se descobriu outra «ciência» nem outra revolução para a transformação do homem a não ser aquela revelação trazida por Jesus:

- renunciar aos sonhos de omnipotência;

- reconhecer a incapacidade da salvação pelos meios humanos;

- tomar consciência da nossa miséria e fragilidade;

- entregar-nos confiada e incondicionalmente nas poderosas mãos de Deus;

- permitir dia após dia, abandonados com absoluta «passividade» nas Suas mãos, ser transformados desde as raízes.

(Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

sábado, 17 de maio de 2008

Alta Fidelidade


"Não é vantagem nenhuma manter-se erguido como um álamo numa tarde serena. O mérito da fidelidade está em permanecer de pé quando todas as tempestades se desencadeiam sem tréguas. E foi precisamente aí, na hora da Grande Prova, que Jesus se abandonou à vontade do Pai com pureza e radicalidade, sem restrições nem atenuantes. Foi o momento da Alta Fidelidade.

No Getsémani, Jesus transformou-se no grande miserável, não no sentido de ter carregado com todas as misérias humanas, mas no sentido de que experimentou a miséria de sentir-se homem até à limitação última da contingência humana, até sentir a cobardia, a náusea e a contradição. Desceu aos mais remotos níveis da condição humana.
Distinguiu com aterradora lucidez duas vontades que se enfrentaram violentamente entre si.

Jesus vinha a ser nesse momento um campo de batalha onde duas forças antagónicas travavam
a sua luta final: «o que eu quero» e «o que Tu queres» ". - (Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Fazer-se criança




"Se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no reino dos céus.» (Mt. 18: 1-4)

"Permanecer criança é reconhecer o seu próprio nada, esperar tudo de Deus, como um menino espera tudo do seu pai...
Ser pequeno significa não atribuir a si mesmo as virtudes que se praticam, acreditando-se capaz de alguma coisa, mas reconhecer que Deus põe esse tesouro da virtude na mão da criança; mas é sempre tesouro de Deus"(Santa Teresa de Lisieux)

"... essa simplicidade de alma, esse terno abandono na majestade divina é a meta da nossa vida, que queremos alcançar, ou voltar a encontrar se alguma vez a conhecemos, pois é dom da infância, que muito amiúde não lhe sobrevive". -(G. Bernanos)


"Salvar-se, segundo Jesus, é fazer-se progressivamente criança.

A criança é um ser essencialmente pobre e confiado, confiado porque sabe que à sua debilidade corresponde o poder de alguém; numa palavra, a sua pobreza é riqueza. Por si, a criança não é forte, nem virtuosa, nem segura. Mas é como o girassol que todas as manhãs se abre para o sol; dele espera tudo, dele recebe tudo: calor, luz, força, vida." - (Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto")

Abandono

"Se entrarmos dentro de Jesus, se descermos até aos fundamentos da Sua pessoa e ali explorarmos os impulsos que estão na origem das Suas inclinações e aspirações, das Suas intenções e dos Seus desejos, e sobretudo se nos pusermos à busca da força secreta capaz de nos explicar tanta grandeza moral, a única coisa que encontraremos seráo abandono, cumprir a vontade do Pai.
É este o seu alimento e a sua respiração. A vontade do Pai sustenta e dá sentido à sua vida.Viveu como uma criança pequena e feliz, levado nos braços de Seu Pai: «Aqui estou para fazer a Tua vontade. Eu o quero, meu Deus, e a Tua lei levo-a nas minhas entranhas» (Sal. 39).

Para Jesus, abandonar-se significou sair do seu próprio interesse e entregar-se ao Outro, repousando confiadamente a Sua cabeça e a Sua vida nas mãos do Seu querido Pai.

O acto de abandono é, pois, uma transmissão de domínio, o dar o «eu» a um «tu»...

Abandonar-se é entregar-se com amor a Alguém que me quer e eu quero-o, e porque o quero, entrego-me." - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O Libertador

"Jesus é o homem que não tem a mínima consideração consigo mesmo e é incapaz de se compadecer de si mesmo. É essencialmente um pobre de coração: não tem interesses pessoais nem presta culto à Sua imagem...

Foi insoburnável porque no jogo da vida não jogou nada - porque nada tinha -; apostou tudo, isso sim, no Outro...
Jesus não é «político», e menos ainda diplomático. Nunca agiu com «tino», com «prudência» ou por cálculos humanos. De outro modo, não teria morrido numa cruz mas numa cama. Não Lhe importa nem a Sua honra nem a Sua vida, mas só a Glória do seu Amado Pai. 

Atirou-se inteiro e foi coerente. Os Seus próprios adversários fizeram uma perfeita fotografia psicológica d´Ele: «Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas para as aparências dos homens mas ensinas o caminho de Deus, segundo a verdade» (Mc. 12, 14).
Ao renunciar à Sua vontade para assumir a vontade do Pai, Jesus libertava-se de si mesmo. Ao ficar liberto de si mesmo, era constituído Libertador." - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

terça-feira, 6 de maio de 2008

O mais livre dos homens

"Deixando-se conduzir confiadamente pelo Pai, Jesus de Nazaré adquiriu uma estatura moral única, convertendo-se em testemunha incorruptível do Pai, cheio de liberdade interior...

Um homem actua com soberania quando é livre. Quando o homem está intimamente cheio de interesses, então a insegurança e os medos esmagam-no e fazem da sua vida um mendigar apreço e estima das pessoas, alienando a sua liberdade...

Confiante, carinhoso, entregue nas mãos do Seu querido Papá, oferece-se a todos. Entrega-se sem se preocupar com a Sua pessoa, preocupado com os outros.
Sente-se livre para servir a todos sem preconceitos moralistas; seja com pagãos ou com prostitutas, sentando-se à mesa com publicanos e pecadores.
Sente-se livre para servir a todos sem preconceitos nacionalistas ou patrióticos, aos romanos como ao centurião, aos samaritanos que eram considerados «herejes», aos pagãos de Tiro, Sidónia e Cesareia de Filipe.
Está decididamente do lado dos pobres mas é livre para estar também com os ricos. Está decididamente pela gente humilde mas é livre para atender a fariseus e sinedritas como Nicodemos e José de Arimateia." - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

terça-feira, 15 de abril de 2008

Um Deus desconcertante


O nosso Deus é desconcertante. Quando menos se espera, como que em assalto nocturno, Deus cai sobre uma pessoa, deita-a por terra com uma presença poderosa e inefavelmente consoladora, confirma-a para sempre na fé e deixa-a a vibrar, quem sabe, talvez para toda a vida. Diante de operações tão espectaculares e gratuitas, muitos ficam a perguntar-se: E porque não a mim? A Deus não se podem fazer perguntas. Tem-se de começar por aceitá-Lo tal como Ele é.

A umas pessoas leva-as o Senhor pelas areias do deserto, numa eterna tarde de aridez. A outras deu-lhes uma sensibilidade notável para as coisas divinas, tal como predisposição inata de personalidade e, no entanto, nunca lhes concedeu uma gratuidade infusa propriamente dita. Homens houve na história que jamais se preocuparam com Deus, fosse para atacá-Lo, fosse para defendê-Lo; no entanto, o próprio Deus saiu ao encontro deles com glória e esplendor. Há quem navegue num mar de consolações, desde o nascer até ao pôr do sol da sua existência. Há almas destinadas a fazer da sua peregrinação através duma perpétua noite, e noite sem estrelas. Pessoas há que caminham entre altos e baixos e vaivéns, à luz de sol brilhante ou sob espessas nuvens. Para outros, a vida com Deus é um dia perpetuamente cinzento. Cada pessoa é uma história, e uma história absolutamente única e singular.» - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Coração de águia


«Considero-me como débil passarinho coberto de leve plumagem. Não sou águia; só tenho dela os olhos e o coração, mas apesar da minha extrema pequenez, atrevo-me a olhar fixamente para o Sol divino, o Sol do amor, e o meu coração sente em si todas as aspirações da águia. O passarinho quisera voar até esse brilhante sol que fascina seus olhos.
Que será dele? Morrerá de dor vendo-se impotente? Oh não! O passarinho nem sequer chega a afligir-se. Com um abandono audaz quer continuar a olhar fixamente para o seu divino sol. Nada o assusta, nem o vento nem a chuva. Se nuvens escuras vêm ocultar o Astro do Amor, o passarinho não muda de lugar; sabe que além das nuvens o seu Sol continua a brilhar, que o seu esplendor não poderá eclipsar-se nem um só momento» (1)

Somos apenas um pardal, mas temos coração de águia. Este é o mistério terrível e contraditório do homem: sentir-se, ao mesmo tempo, pardal e águia; ter um coração de águia e asas de pardal.

Que fazer? Sei que não posso voar tão alto. Nem tentarei. Nem sequer baterei as asas; entregar-me-ei às asas do vento; o vento é Deus. O resto fá-lo Ele. Sei que sou um pardal, mas sei também que, com uma grande paz, me entrego a Deus. Ele pode emprestar-me poderosas asas de águia. Haverá alguma coisa impossível para Ele? Sei que sou um montão de ruínas e desolação; mas sei também que, se me entrego a Deus, Ele pode transformar-me numa mansão deslumbrante. Ele é Poder e Graça.» - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"

(1) Santa Teresa do Menino Jesus

sábado, 12 de abril de 2008

Fé Infantil vs Fé Adulta

"(...) fé infantil será aquela que, para se entregar, precisa de apoios, seguranças, tranquilizantes. Fé adulta será aquela que sem apoios, sai de si mesma, corre todos os riscos, confia, permite e se entrega. Entrega-se no vazio de seguranças, evidências e tranquilizantes. Fá-lo de pé, sozinho.(...)

O «adulto» na fé supera as distâncias e limitações inerentes à fé, saindo de si mesmo: desprende-se de todos os arrimos intelectuais que o raciocínio lhe proporciona e dá o grande salto no vazio, em plena noite escura, abandonando-se ao absolutamente Outro. É um salto no vazio porque o crente abandona as «razões» e deixa-se cair nesse abismo profundo que é o mistério.


Este é o grande momento da fé. É este o acto radical onde vai buscar todo o seu mérito e valor transformante. Só tem valor a crença na luz quando se vive na noite. Eu creio que por trás deste silêncio respiras Tu. Eu creio que por trás desta escuridão brilha o Teu Rosto. Ainda que tudo me saia mal, ainda que chovam os infortúnios, eu creio que me amas. Ainda que tudo pareça fatalidade, mesmo que nos pareça absurdo o mundo, mesmo diante do espectáculo de homens a odiar e de crianças a sofrer, mesmo ao ver que reina a tristeza e que mataram a pomba da paz, nem que me atormente a vontade de morrer..., eu creio, eu entrego-me a Ti. Sem Ti, que sentido teria a vida? Tu és a vida eterna.» - Ignacio Larrañaga, em "Mostra-me o Teu Rosto"