segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Preconceito é uma forma preguiçosa de conhecer!

Preconceito é uma forma fácil de ter opinião. Não requer esforço, não requer pesquisa, empenho, visto que se trata de uma primeira visão que temos acerca de uma determinada realidade.

É óbvio, mas é bom dizer, que a visão preconceituosa, é aquela que resolveu ficar parada no pré-conceito, isto é, no que vem antes da verdade. Um conceito é sempre o fruto de uma elaboração mais trabalhosa da vida, o pré-conceito não. Ele é uma fase primária do conceito. É por isso que quem gosta de pré-conceitos tende a ficar na imaturidade a vida inteira.

O mesmo se deu conosco quando entramos no pré-primário. Já imaginou se não tivéssemos aceitado o desafio de ir para o primário, com suas dificuldades e diferenças do pré?

Somente o passo em direção ao novo nos garante a felicidade das surpresas. A vida é sempre assim. O que agora é alimento, com o tempo, deixa de sustentar. Isto porque estamos num constante processo de superação humana, e o que nos move, é este desejo de irmos além...

É por isso, que me entusiasmo com a dimensão antropológica do cristianismo. As palavras de Jesus nos encorajam para um constante aperfeiçoamento de nossa humanidade e para a constante superação dos nossos limites. E então, passamos a compreender que santificação é o mesmo que dizer humanização. Retirar os excessos, lapidar as arestas, superar as mesquinharias, os modelos superficiais de análises, os ciúmes e os apegos desordenados, são formas concretas de santificar a nossa vida.

Preconceito é também uma forma de aprisionamento. Olhamos o outro e o definimos a partir do que achamos sobre ele. Temos uma série de opiniões que resolvemos construir dentro de nós, e que são frutos de uma primeira visão. Olhamos e encaixotamos o outro no nosso preconceito . Decidimos que ele é assim, mesmo que nunca tenhamos nos aproximado dele para confirmar o que achamos...

Achamos e perdemos. Perdemos por desperdiçar a oportunidade de superar o conhecimento aparente, e assim quem sabe, ganhar um grande amigo, um grande apoio existencial. Achamos muitas coisas sobre ele. E por achar tanto, resolvemos não buscar a verdade fundamental, e assim deixamos de ganhar. Talvez esse seja um dos grandes pecados do nosso tempo. O mundo é superficial nas suas análises. Basta flagrar uma única atitude, para que o mundo entregue o seu parecer preconceituoso e definitivo.

Jesus se opunha radicalmente a esta postura. Ele gostava de ver além. E alertava os discípulos para este constante cuidado. O cristianismo supera o judaísmo justamente neste ponto. Jesus não queria uma religião que parasse na exterioridade, que dispensasse facilmente as pessoas só porque têm uma aparência ou um histórico que num primeiro momento não nos agrade.

A beleza da vida consiste em olhar o mundo com "olhos de terceira margem", com os olhos de Jesus. Eu, nem sempre consigo, mas não quero perder este esforço de vista. Eu ainda vivo o desconcerto das escolhas de Jesus. Fico indignado quando o vejo escolher Zaqueu em meio a tanta gente santa e de boa índole. Ainda me incomoda quando ele diz que as prostitutas podem me preceder na entrada do Reino.

E então me vejo, com minha maneira rasa e infecunda de esbarrar nas pessoas, de condená-las àquilo que acho sobre elas e de impedi-las de me surpreenderem com sua beleza escondida.

A vida é igual garimpo. Não se percebe o diamante numa primeira olhada. Por ser muito parecido com o cascalho, corre o risco de ser jogado fora. Cascalhos e diamantes se parecem. A única diferença é que o diamante esconde o brilho sob as cascas que o revestem. É preciso lapidar. Pessoas são como diamantes. Corremos o risco de jogá-las fora só porque não tivemos a disposição de olhá-las para além de suas cascas. E então, desperdiçamos grandes riquezas no exercício de alimentar pobrezas.

Quando o meu preconceito me impede de ver o diamante, eu me torno cascalho no mundo. Espero que hoje você descubra diamantes por onde passar. Se descobrir, estará sendo semelhante a Jesus...

Padre Fábio de Melo SCJ

O seu coração sabe disso !

O seu coração sabe disso, porque certamente já experimentou o amargo sabor da solidão. É no encontro com o outro que o eu se afirma e se constrói existencialmente. O outro é o espelho onde o eu se solidifica, se preenche, se encontra e se fortalece para ser o que é. O processo contrário também é verdadeiro, pois nem sempre as pessoas se encontram a partir desta responsabilidade que deveria perpassar as relações humanas.

Você, em sua pouca idade, vive um dos momentos mais belos da vida. Você está experimentando o ponto alto dos relacionamentos humanos, porque a juventude nos possibilita ensaiar o futuro no exercício do presente. Já me explico. Tudo o que você vive hoje será muito importante e determinante para a sua forma de ser amanhã.

Neste momento da vida, você tem a possibilidade de estabelecer vínculos muito diversificados. Família, amigos, grupos de objetivos diversos, namorados e namoradas. Principalmente esses últimos, que não são poucos. Namora-se muito nos dias de hoje, porque as relações humanas estão cada vez mais instáveis e, por isso, menos duradouras. Parece que o amor eterno está em crise.

Que o seu amor não seja único!

Quando paramos para pensar um pouco, chegamos à conclusão de que o problema está justamente na forma como estabelecemos os nossos relacionamentos.

O grande problema é que geralmente investimos todas as nossas cartas naquela pessoa nova que chegou. Ela passa a centralizar a nossa vida, consumindo nosso tempo, nossos afetos, nossos pensamentos e nossas energias. Tudo passa a convergir para ela e, com isso, vamos reduzindo o nosso círculo de relações. O outro vai tomando tanto nossa atenção que, aos poucos, até mesmo a família vai sendo esquecida.

Porém, quando esquecemos de cultivar estes vínculos que até então faziam parte de nós, vamos criando lacunas afetivas dentro do nosso coração. É nesse momento que a confusão acontece, pois todas as necessidades começam a ser preenchidas pela pessoa enamorada.

Com o passar do tempo, ela começa a carregar um fardo muito pesado, pois passou a exercer a função de pai, mãe, irmão e amigo, quando na verdade ela é apenas um namorado, ou namorada.

Cada forma de amor no seu lugar!

Essa relação começará ser muito pesada para ambos. Será fortemente marcada pela dependência, pelas cobranças e pelo ciúme. Ambos passam a viver uma insegurança muito grande, pois nunca sabem ao certo o papel que exercem na vida um do outro. O amor deixa de ser amor e passa a ser sentimento de posse, como se o outro fosse uma propriedade adquirida, pronta para atender todos nossos desejos.

Quando o coração humano identifica esse sentimento de posse, ele tende a se esconder de si mesmo e, conseqüentemente, dos outros. Teme que alguém venha quebrar o encanto, mostrando que não existe nenhuma história de amor e que ambos viraram sapos. E, o pior, acorrentados.

Mas a mudança é sempre possível. Só é preciso que sejamos honestos. Se por acaso você se identificou com esta possessiva e conturbada forma de amar, vale à pena buscar uma ajuda. Comece a canalizar melhor os seus afetos. Não os direcione a uma única pessoa. Tenha amigos, cultive-os. Redescubra sua casa, seus pais, seus irmãos, mesmo que existam problemas entre vocês.

Deixe aflorar os afetos que ficaram adormecidos dentro de você. Não coloque sobre a pessoa que você diz amar a responsabilidade de ser o centro do seu mundo, nem se sinta deixado de lado o dia em que ela disser que não vai lhe ver, porque precisa ficar com a família. É que existem momentos que o colo da mãe é muito mais necessário do que o seu.

É duro de ouvir isso? Pois é, muito mais duro é não compreender!

Padre Fábio de Melo SCJ

O medo

Medo é o avesso da coragem. É por meio dele que eu alcanço algumas vitórias. Quem não tem medo corre o risco de se tornar um herói sem graça, pronto demais.

A vida é bonita justamente por ser inacabada. A metade que falta, o detalhe que ainda não alcançamos, o objetivo que ainda está pela metade. Tudo se torna mais bonito quando visto do avesso.

Os medos também. Há muito tipos e estão por toda parte: medo de não vencer, de não chegar, de não saber, de não consequir, de subir a escada, de errar no tempero, de perder, de morrer...

O avesso do medo é o cuidado redobrado, porque quem tem medo, cuida. Não se expõe ao perigo, mas resguarda.

O medo é bom, porque não nos enche de falsa coragem. O medo nos torna reais, nos mostra quem somos, mensura o tamanho de nossas pernas...

O medo nos coloca no nosso lugar e nos prepara para o sorriso do pódio.

Há medos que nos paralizam. São temores doentios. Eles nos entorpecem, nos amarram e precisam ser vencidos. Precisam ser olhados de frente, para que voltem à condição de medo, apenas... Medo saudável.

Medo que me faz ser humano na medida certa, porque no humano bem medido, o divino prevalece.

Só isso. O resto é lição que a lousa da vida espera por ser escrita.

Padre Fábio de Melo SCJ

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Não desista de amar !

Fomos educados para ter coragem. Desde muito cedo ouvimos dos nossos pais, irmãos, dos professores, que precisamos conquistar o sucesso...
O universo infantil é feito de heróis, não se chama atenção de uma criança com coisas simples. As crianças gostam de coisas extraordinárias, inexplicáveis, por isso os super heróis são recheados de personagens através de super poderes...
Por que o super homem é um super-homem? Ele é capaz de voar, de parar o mundo com as mãos, tem uma força q ninguém tem, e o super homem é para a criança um símbolo de sucesso, e ali você tem um pouco dessa educação para o sucesso...
O mágico com sua cartola é capaz de criar situações inexplicáveis, deixando a criança fascinada...
O grande problema do sucesso é que para chegar ao sucesso temos que fazer a experiência do fracasso, não tem como chegar ao sucesso sem o choro, sem a dificuldade...
Aqueles que nos educam para o sucesso esquecem de falar no nosso ouvido que para alcançá-lo teremos que trabalhar muito, e que ao contrário dos super heróis não fomos programados com super poderes. Alcançamos sucesso sim, mas sempre mediante esforço pessoal...lutas...muitas vezes através de dores e sofrimentos...
Quando criamos em nós a sensação de sermos super-heróis, sentimos dificuldade de lidar com aquilo q é frágil dentro de nós...
Porque o que é frágil toma conta de nós e começamos a girar em torno dos nossos defeitos...
Queremos o sucesso, e esquecemos que para chegar nele, muitas vezes teremos que passar por fracassos...
Geralmente quando deparamos com a cruz percebemos que ela tem o mesmo formato de um homem de asas... A cruz é semelhante a um homem de asas...
Quando descobrimos a forca do sofrimento para buscar a redenção que precisamos, percebemos que através da cruz somos capazes de voar, de ir além...
Olhe para Cruz que você tem, onde a angústia toma conta do seu coração, ela é pesada, pense no avião que voa em formato de cruz...
O avião sobe porque faz um esforço, seus motores sofrem para subir e para descer, depois que o avião está lá em cima, manter-se torna-se mais fácil, porém para subir e para descer o esforço é dobrado...
O avião é pesado. Sua cruz também é, o avião sobe e sua cruz pode lhe fazer subir também, Porque se o avião tem o poder de lhe levar ao alto, não duvide de sua cruz, olhe para ela como asas de uma avião, e veja sua cruz de uma maneira diferente. Quando estamos no limite, alguma coisa é transformada em nós...
O momento que você se percebe lutando por algo é só "subir", é só buscar, ir á luta e esperar a vitória...
Por isso não devemos ter medo daquilo que nos faz sofrer, a cruz não pode nos prender a ela, porque na verdade ela é a mola que nos fará voar...
Descubra hoje o que mais lhe faz sofrer e comece a ver os avessos desse sofrimento...
Para que se abater com isso se esse sofrimento pode lhe levar ao alto? Ao sucesso? Não tenha medo de ir além...
Até mesmo o soldado mais forte tem o direito de dizer que está com medo, não tenha medo de contar que está sofrendo, não tenha medo de ter medo...
Você não é super-herói! Você é um ser humano, cheio de fragilidades e nessa mistura bonita faz a vida acontecer...
Não queira ter todas as armas para a vitória, acredite que Deus lhe entrega as graças dia a dia...
No filme "Procurando Nemo", onde os peixes vivem no aquário onde o peixinho "nemo" foi capturado achavam que a vida só existia naquele lugar, e a vida não é apenas um aquário, a vida é mar...
Busque! Vá além! O ser humano não foi feito para se acostumar com realidades mesquinhas. Fomos criados para ir além..
O que você faz da sua vida? Será que você extrai de você o que você tem de melhor?
Ou você se conforma do jeito que está?
Tire o avião do chão! Não se contente em ficar no chão! Você pode muito mais...
Sua viagem pode ser muito longa! Não se limite à pequenas distâncias! Decole! Tire sua cruz do chão e voe, como homens e mulheres que vão nas asas da cruz, porque nessas asas, a vitória é certa...( Pe Fabio Melo)

Volte a gostar de voce !

Ás vezes eu fico preocupado porque se fôssemos pensar a nossa vida como se fosse uma casa, uma sala e a gente pensar que os acontecimentos da vida é que decoram o ambiente...
Digamos que você seja uma grande casa e tudo aquilo que aconteceu na sua vida é a mobilia da sua casa...
Quem dera a gente pudesse se livrar de algumas peças, jogar um sofá velho de desaforo, aquele quadro que lhe recorda aquela traição, porque às vezes as pessoas passam por nossas vidas e não estão preocupadas com o que estão deixando, com o que estão esquecendo em nós e você fica com tudo aquilo e agora precisa fazer a harmonia acontecer...
Você pode jogar fora ou pode tranformar! Existe uma palavra chave que se chama reciclar, reciclagem é o processo de você tornar bonito o que antes estava velho...
Descobrir que há um jeito bonito de transformar seu sofrimento em acontecimentos que valem a pena relembrar, porque você extraiu dele algum ensinamento...
A gente não cresce na alegria, a gente não cresce na fé! Eu me orgulho de ter na parede da minha vida os quadros do meu sofrimento, eles não me fazem sofrer de novo, me fazem lembrar que há uma força que vem de Deus dentro de mim, capaz de olhar pra ele e de dar a ele um novo significado...
O que não podemos fazer é decorar a casa da nossa vida com todos os ressentimentos que guardamos dela, porque senão, você vai se tornar infeliz, cada vez que olhar para parede descobrir que todos os seus olhos estão pendurados ali...
Não faça de sua casa(vida) um lugar dificil de ficar, transforme tudo aquilo que não valeu a pena na sua vida! Recicle, descubra a graça de transformar tudo aquilo que não valeu a pena, que você não soube, que você não acertou... Não guarde ressentimentos...
Uma das coisas mais bonitas em perdoar pecados é que escondido atrás da frase: "Eu te perdoo em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo" há uma frase simples e escondida que só os sábios sabem escutar...
O que o padre quer dizer é "Volte a gostar de você!", volte a cuidar de você...
Não permita que o seu pecado seja sua primeira notícia, esqueça o que não deu certo, esqueça o que não valeu a pena, esqueça o que foi duro, o que você não soube não tem problema, Deus está lhe dando uma nova página para que você continue escrevendo o texto da sua vida...
Se essa mobília está desagradável ao seus olhos, descubra a graça da reciclagem, coloque novas cores, a aquarela está em suas mãos, e o poder do altíssimo está em potencializar sempre a nossa coragem para que a gente não desista da gente mesmo...
A vida começa aqui, no coração, centro da sua casa, lugar onde o mundo pode recomeçar!
Deus não desistiu de você, Deus continua acreditando em você, e se Ele acredita em você, quem é voce pra duvidar ?
( Pe Fabio Melo )

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O encanto nosso de cada dia

Ainda bem que o tempo passa! Já imaginou o desespero que tomaria conta de nós se tivéssemos que suportar uma segunda-feira eterna?

A beleza de cada dia só existe porque não é duradoura. Tudo o que é belo não pode ser aprisionado, porque aprisionar a beleza é uma forma de desintegrar a sua essência.

Dizem que havia uma menina que se maravilhava todas as manhãs com a presença de um pássaro encantado. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto que não durava mais que cinco minutos. A beleza era tão intensa que o canto a alimentava pelo resto do dia. Certa vez, ela resolveu armar uma armadilha para o pássaro encantado. Quando ele chegou, ela o capturou e o deixou preso na gaiola para que pudesse ouvir por mais tempo o seu canto.

O grande problema é que a gaiola o entristeceu, e triste, deixou de cantar.

Foi então que a menina descobriu que, o canto do pássaro só existia, porque ele era livre. O encanto estava justamente no fato de não o possuir. Livre, ele conseguia derramar na janela do quarto, a parcela de encanto que seria necessário, para que a menina pudesse suportar a vida. O encanto alivia a existência... Aprisionado, ela o possuia, mas não recebia dele o que ela considerava ser a sua maior riqueza: o canto!

Fico pensando que nem sempre sabemos recolher só encanto... Por vezes, insistimos em capturar o encantador, e então o matamos de tristeza.

Amar talvez seja isso: ficar ao lado, mas sem possuir. Viver também.

Precisamos descobrir, que há um encanto nosso de cada dia que só poderá ser descoberto, à medida em que nos empenharmos em não reter a vida.

Viver é exercício de desprendimento. É aventura de deixar que o tempo leve o que é dele, e que fique só o necessário para continuarmos as novas descobertas.

Há uma beleza escondida nas passagens... Vida antiga que se desdobra em novidades. Coisas velhas que se revestem de frescor. Basta que retiremos os obstáculos da passagem. Deixar a vida seguir. Não há tristeza que mereça ser eterna. Nem felicidade. Talvez seja por isso que o verbo dividir nos ajude tanto no momento em que precisamos entender o sentimento da tristeza e da alegria. Eles só são suportáveis à medida em que os dividimos...

E enquanto dividimos, eles passam, assim como tudo precisa passar.

Não se prenda ao acontecimento que agora parece ser definitivo. O tempo está passando... Uma redenção está sendo nutrida nessa hora...

Abra os olhos. Há encantos escondidos por toda parte. Presta atenção. São miúdos, mas constantes. Olhe para a janela de sua vida e perceba o pássaro encantado na sua história. Escute o que ele canta, mas não caia na tentação de querê-lo o tempo todo só pra você. Ele só é encantado porque você não o possui.

E nisto consiste a beleza desse instante: o tempo está passando, mas o encanto que você pode recolher será o suficiente para esperar até amanhã, quando o pássaro encantado, quando você menos imaginar, voltar a pousar na sua janela.

Padre Fábio de Melo SCJ

Quando a missa se torna uma obrigação...

Religião é uma forma de religar. Religa partes, une pontas e diminui distâncias. O sacramento está sempre unido a um símbolo justamente por isso, pois ele é uma forma de concretizar a natureza da religião. Ele é a parte humana que se estende em direção a Deus com o intuito de tocá-lo e experimentá-lo. O símbolo é uma forma de prazer e o sacramento também, pois nele o sacrifício está redimensionado, já tem cores de ressurreição.

A pergunta

O menino chegou e perguntou-me: "Padre, eu sou obrigado ir à missa?". Olhei seus olhos e percebi uma honestidade na questão formulada. Junto da honestidade, havia uma ansiedade que lhe impedia o sorriso. No rosto, não havia alegria. Estava tomado de uma certeza de que a liturgia católica, para ele, estava longe de ser um acontecimento que lhe extraia gratuidade. Era uma obrigação a ser cumprida.

Sua voz parecia me pedir socorro, feito escravo com sua carta de alforria em mãos, a me pedir assinatura.

Naquele momento, fiquei sem palavras. Senti o coração apertado no peito e o desejo de nada responder. Reportei-me à Escritura Sagrada e senti-me como o próprio Abraão, diante do questionamento de Isaac: "Pai, onde está a vítima do sacrifício?" (Gn 22, 7). Pergunta que não tem resposta. Pergunta cheia de ansiedade, de silêncio, de motivos, honesta e plena de razões.

Olhei-o com muita firmeza e resolvi desafiá-lo: "É obrigado visitar alguém a quem se ama?". Ele disse: "Não, não é não, padre". Seguiu-se o silêncio. Calou-se ele, e eu também.

A pergunta que não cala

Algumas horas depois, retomei sua pergunta e fiquei pensando nela. Coloquei-me a pensar na religião que se apresenta ao coração humano como obrigação a se cumprir, feito mochila pesada que se leva nas costas.

Fico pensando no quanto a obrigação pode se opor ao prazer. E o quanto é contraditório fazer a religião ser o local da obrigação. Na expressão: "Deus é amor" (1Jo 4, 8), definição que João nos apresenta em sua carta, está a declaração da gratuidade de Deus.

Deus é o próprio ato de amar. Ele é o amor acontecendo, e a liturgia é a atualização dessa verdade na vida das pessoas. Ir à missa é tomar posse da parte que nos cabe.

Tudo o que ali se celebra e se realiza tem o único objetivo de nos lembrar que há um Deus que se importa conosco, que nos ama e quer nos ver mais de perto. O sacramento nos aproxima de Deus.

Tudo bem, essa é a Teologia, mas e a vida, corresponde à verdade teológica?

Nem sempre. Nosso rito, por vezes, cansa mais do que descansa. É lamentável que a declaração de amor de Deus por nós tenha se tornado uma obrigação.

Sou obrigado a ouvir alguém dizer que me ama?

Se muita gente pensa assim, é porque não temos conseguido "amorizar" a celebração. Racionalizamos o recado de Deus e o reduzimos a uma informação fria e calculada. Dizemos: "Deus nos ama!", da mesma forma como informamos: "A cantina estará funcionando depois da missa!".

A resposta que responde perguntando

Pudera eu ter uma solução! Ou quem sabe uma resposta que aliviasse os corações que se sentem obrigados a conhecer o amor de Deus, como o coração daquele menino.

Talvez, o teu coração também já tenha experimentado essa angústia e essa ansiedade. Gostaria de saber restituir o sabor lúdico das celebrações católicas. Torná-las acontecimentos reveladores, palavras para não serem esquecidas e imagens que despertassem o coração humano para o desejo de descansar ali todas as questões existenciais que o perturbam.

O problema não está no conteúdo do que celebramos, mas, sim, na forma.

A natureza simbólica da vida é o lugar do encanto. Por isso, a celebração é cheia de símbolos. Mas o símbolo, se explicado, deixa de ser símbolo, perde a graça e deixa de comunicar. Talvez seja isso o que tem acontecido conosco. Na ansiedade de sermos eficientes, tornamos a celebração um local de comunicar recados. Falamos, falamos, de maneira ansiosa, cansada e repetitiva. Temos que falar algo, pois também o padre tem a sua obrigação!

E assim vamos celebrando, obrigando o coração e os sentidos a uma espécie de ritual que nos alivia a consciência, mas não nos alivia a existência.

A missa é muito mais do que uma obrigação: é um encontro. Encontro de partes que se amam e se complementam. É só abrir os olhos e perceber!

Creio que possa ser diferente.

Padre Fábio de Melo SCJ

O banquete dos miseráveis

Um banquete só tem significado para quem tem fome. Os saciados não desejam a proximidade do alimento. A fome é o elemento chave para que possamos desejar e apreciar o banquete.

Da mesma forma, o hospital não tem significado para quem está são. Somente os doentes carecem de hospitalização.

Essa comparação é simples, eu sei. Mas ela nos aproxima de uma verdade ímpar que Jesus fez questão de nos ensinar.

É desconcertante, mas a Eucaristia é o banquete dos miseráveis. Ela é o momento em que Deus se põe à mesa com os escórias da humanidade, com os últimos, os menos desejados.

Miseráveis, famintos, prostituídos, doentes, legítimos representantes da fome. Fome de pão, fome de beleza, fome de dignidade, fome de amor, fome de companhia.

Corações sufocados pela solidão do mundo, pelo descaso dos favorecidos e pela arrogência dos fortes.

A vida sem cuidados, mostrada nos olhos que já não sabem nutrir grandes esperanças. Olhares que nos fazem lembrar o olhar de Mateus, o olhar de Zaqueu, o olhar de Madalena... Olhares que não se sentem merecedores, e que se já se convenceram de que estão condenados.

E então, quando a vida os surpreende com o sorriso de Deus, olhando-os nos olhos, dizendo que está feliz porque eles reapareceram, e que para comemorar esta alegria um banquete lhes foi preparado.

Roupas limpas, banhos demorados, coisa de quem não faz do amor um discurso teórico. O sabonete, o cheiro bom a nos recordar antigas esperanças.

Alegrias nas taças, toalha branca estendida sobre a mesa, o colorido que tem sabor agradável. O melhor vinho, a melhor música, o melhor motivo a ser comemorado. A ceia está posta.

E então eu me ponho a pensar...

Recordo-me do quanto eu não sei viver a Eucaristia com esta mística. Penso no quanto sou seletivo ao pensar naqueles que Deus anda preferindo.

E então, hoje, nesta fração de tempo que passa, em que seus olhos se encontram com meu coração de padre, aqui, nesta tela fria de computador, eu fico desejando lhe convencer do quanto você é amado por Deus.

Ainda que seus dias sejam marcados pela rebeldia, pela derrota, pela queda, não desista! Religião só tem sentido se for para congregar, recordar a miséria como condição que nos torna preferidos...

É simples de entender. Pense comigo: uma mãe geralmente tende a cuidar de forma especial do filho que é mais frágil. Concorda comigo? Pois bem. O que é frágil será sempre velado, cuidado e amado.

Assim é você. Um miserável que tem entrada garantida na última ceia de Jesus.

Não venha com muitos pesos. Traga apenas uma pequena lembrança para o Mestre que o espera. Uma florzinha, um pedacinho de doce, não sei. Você é criativo e saberá escolher melhor.

Que o presente seja pobre, pois assim você descobrirá que o maior presente que Ele pode receber é o seu coração de volta.

Combinados?

Espero que sim.

O seu nome já foi chamado por Ele. Não o deixe esperando por muito tempo.

A casa é a mesma. O endereço você já sabe!

Padre Fábio de Melo SCJ

Pensamentos e oração

Apesar de existirem máquinas que, dizem, detectam a verdade ou a mentira das pessoas, ainda temos uma área reservada para nós mesmos, onde ninguém pode entrar. São os nossos pensamentos. Os outros vão saber somente o que nós deixamos escapar, ou o que decidimos revelar. O resto fica conosco, guardado ou esquecido; curtido, às vezes; outras teimando em voltar contra a nossa vontade. É o patrimônio das emoções, das lembranças e das saudades. Infelizmente, também, das feridas, das humilhações e das tristezas que carregamos. Esse, talvez, seja o nosso tesouro verdadeiramente pessoal, onde estamos a sós com a nossa consciência e que, inclusive, não vamos poder deixar para ninguém. É nosso e basta. Nós e Deus, claro, ao menos, se acreditamos e confiamos nele. Tudo o que lembrei vale também para a nossa oração.

Nos poucos momentos de silêncio das nossas liturgias, surpreendo-me perguntando-me o que as pessoas estão pensando e rezando. Todos nós ouvimos a mesma Palavra de Deus, a mesma explicação, cantamos os mesmos cantos, recebemos a mesma Eucaristia, mas cada um carrega no seu coração a própria história, a própria personalidade e a própria fé.

Imagino a oração simples e confiante das crianças, repetindo palavras ouvidas e correndo com o pensamento, já, lá fora, nas brincadeiras com os colegas, nos pequenos objetos guardados com ciúme. Imagino também a oração dos idosos, carregadas de lembranças, de rostos e de momentos vividos. Alguns devem agradecer pelo dom da vida, outros devem pedir mais uns dias, outros se preparando ao grande encontro. Todos, com certeza, rezam por suas famílias e por aqueles que os acompanham. Que bom quando a pessoa idosa se sente amada e até mimada!

Deve ter, pois, a oração dos pais, preocupados com a família, com os filhos,, com o trabalho, com as contas para pagar. Animados com o desejo de sair da igreja e ser um pouco mais sorridentes e amigos dos que encontrarem nos caminhos da vida. No meio de tantas confusões, um pouco de serenidade, de esperança e de alegria são bens preciosos a serem protegidos e sempre renovados a cada celebração da vida e da fé.

Fico também pensando como deve ser a oração dos empresários, dos executivos, dos políticos, dos comerciantes. Será que sabem deixar um pouco de lado os negócios e pensar em Deus? Come se sentem, perante o Altíssimo, na posição social tão importante e vertiginosa que ocupam?

Não posso esquecer a oração dos nossos irmãos com deficiências; como deve ser a oração de quem não pode andar, de quem não consegue falar e de quem mal sobrevive, carente de pensamentos e sonhos? Talvez seja a melhor; a única que Deus já conhece e acolhe.

Assim Jesus, um dia, falou da oração de dois homens, um fariseu e um cobrador de impostos. O primeiro foi ao templo para se orgulhar da sua honestidade, da sua integridade e obediência mais rigorosa às leis. Infelizmente estava tão cheio de si que acabou desprezando o cobrador de impostos, que estava lá no fundo do templo, de cabeça baixa. Essa não foi oração, coisa nenhuma. Porque aquele homem não precisava de Deus, de tão bom e perfeito que ele se achava. Ao Pai, também, não interessava, e continua não interessando, uma oração assim. Para os filhos, também, é inútil, porque não muda em nada a vida deles: eles são os melhores! Nada mais tem a aprender.

Humilde foi, ao contrário, a oração do cobrador de impostos. Reconhecia-se pecador e não merecer nem levantar os olhos para o alto. Pediu perdão e ajuda para mudar. Entendeu que devia mudar. Desejar ser melhores já é um começo. Abre-se um caminho.

Vamos todos aproveitar para melhorar a nossa oração. No silêncio do nosso coração, só Deus sabe o que estamos pedindo, porque estamos agradecendo ou louvando. Somente Ele, e nós, conhecemos as nossas angústias. O IV Prefácio Comum reza assim: “Eles (os nossos louvores) nada acrescentam ao que sois, mas nos aproximam de vós, por Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso ”Enfim, pensamentos e orações, apesar de tão secretos, servem para a comunhão entre nós e com Deus. E a solidão é menos pesada.

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá (AP)

Nós fazemos as escolhas e as escolhas nos fazem

Diante de tudo o que a vida apresenta sempre nos são confiadas escolhas e opções. Diante dos dissabores que vivenciamos são diversas as possibilidades que temos para reagir: Ou crescemos com as dores – extraindo delas o devido conhecimento, ou estacionamos nelas e acabamos nos tornando pessoas amargas.

A vida é tecida por opções, por escolhas que fazemos e que acabam delimitando o sentido e as cores de nossa história.

A maneira como agimos e reagimos diante de nossas próprias fraquezas também se constitui como realidade que porta em si o poder de determinar o curso de nossa maturidade. Muitas vezes, concluímos que não somos nem temos o que gostaríamos, e isso nos causa dor. Porém, diante de tal insatisfação – tão humana e natural – temos duas opções: Ou passamos a vida inteira nos lamentando por não sermos nem termos o que idealizamos, ou nos assumimos no que somos e fazemos a vida ser feliz a partir do que temos e somos, ou seja, a partir de nosso real.

A feliz decepção de nos descobrirmos frágeis e imperfeitos pode ser motivo de estéril desgosto ou um significativo impulso para nossa maturidade. Depende da opção que fazemos e da forma como reagimos.

A felicidade é uma possibilidade que reside no real, em nossa verdade. Nunca é tarde para ser feliz e para se decidir por isso. Cada segundo que vivemos se constitui como uma possibilidade concreta para começar a construir, com nossas escolhas, nossa felicidade.

A felicidade não acontece de uma hora para outra; ela é fruto de uma construção, de pequenas e grandes escolhas que precisam ser feitas, as quais, aos poucos, edificam na vida a devida maturidade que sabe extrair sabor de tudo, dando sentido ao que se faz e ao que se vive.

Sempre encontraremos situações diante das quais precisaremos nos posicionar. Ninguém pode construir um “futuro” e uma vida feliz se diz “sim” a tudo o que lhe é oferecido.

Não podemos nos permitir ser “levados pela vida”, tampouco podemos viver sem rumo, sem saber o que queremos, porque – querendo ou não – sempre estamos indo para alguma direção. Ou fazemos escolhas conscientes sobre o que queremos ser, ou seremos “construídos” por modismos e idealizações de outros, tornando-nos assim fantoches nas mãos de uma sociedade que não respeita o que essencialmente somos.

A vida foi confiada a nossa responsabilidade. Nem tudo o que vem a nós é bom, e quem precisa decidir diante de cada situação somos nós. Não podemos nos anular entregando a outros tal realidade, a qual somente a nós compete. Não existe vida autêntica sem responsabilidade, sem assumirmos as rédeas de nossa história e sem decidirmos, de maneira coerente, por aquilo que nos tornará mais gente e, conseqüentemente, mais de Deus.

Nós fazemos as escolhas e as escolhas nos fazem... Por isso, para se construir um futuro é preciso escolher, e escolher bem.

Confiemos a Deus o rumo de nossa história, e busquemos n’Ele a força para melhor decidir, e para escolhermos aquilo que nos fará verdadeiramente felizes.

Deus o abençoe!

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Ó vida verdadeira quando viverei só para Ti?

"Ó vida verdadeira quando viverei só para Ti?
Ó esperança soberana quando chegarei a Ti?
Tesouro infinito, precioso e mais bonito, amor, meu grande amor...
Como e quando desprezar tudo por Ti?
Ó formosura celestial como rejeitar tudo por Ti?
Grandeza misteriosa como compreender a Ti?
Carinho e meu amado, por tantos desprezado, amor, meu grande amor...
Como responder a tal entrega e paixão... ao Teu amor?
Então me entrego, amor divino, ardei em mim, mudai meu ser
Sou ferro, sou frio, põe em mim seu fogo ardente
Vem me abrasar somente em Ti
Ó meu Jesus Menino, meu Deus e meu Destino,
Bem da cruz, meu doce exílio, acolhedor.
Amor meu grande amor...
Faz-me preso ao Teu amor!
Ó vida verdadeira vive em mim."

(Santo Agostinho)

Adorar-Te e encontrar-Te em Teu altar

“Adorar-Te e encontrar-Te em Teu altar
E encontrar-me a mim a verdade que sou eu
Contemplar o Teu olhar..no meu pobre olhar.
e entender que nada sou diante de Ti

E meus desejos e anseios por Ti em minh’alma adentrar
Meus pensamentos, razões que se dobram perante Teu amar
E me faz ver mais alem do que os olhos podem ver
Sobre o véus desse amor... Teu mistério de luz
E não há nada maior do que essa presença a me embalar
Os meus tormentos, sofreres, angustias aos Teus vão se juntar
Tudo pra Te consolar Imolado quero estar
Estando unido a Ti no sacrifício da Cruz

Adorar-Te e encontrar-Te em Teu altar
E encontrar-me a mim a verdade que sou eu...
Adoramos o Verbo, Encarnado, eterno...
Nos prostramos aqui para Te adorar

Adoramos o Verbo Encarnado Eterno
Que se da em alimento
Corpo e Sangue para nos alimentar”

“A primeira que comungou foi a Virgem Maria
A primeira que recebeu Jesus no coração
A primeira que anunciou foi a Virgem Maria
E gerou na fé o Profeta que de Isabel nasceu
Foi por ela que aconteceu a primeira adoração
E quando os magos a encontraram houve a primeira grande exposição
Mãe capela do Santíssimo Sacrário do amor
Expoe para nós Teu filho
Expõe para nós teu filho
Mãe capela do Santíssimo
Morada do Senhor
Expõe para nós teu filho
Expõe para nós teu filho
Primeiro ostensório do Senhor
A primeira que anunciou foi a Virgem Maria
A primeira que recebeu Jesus no coração
Foi por ela que aconteceu a primeira adoração
E quando os magos a encontraram houve a primeira grande exposição”


“Mostra-me os Teus caminhos
Senhor o que queres de mim?
Dá-me o que me mandas,
E mandas o que queiras de mim
Quero entrar em Tua casa
Nos Teus braços descansar
Sentir os Teus carinhos
E repousar o meu olhar no Teu olhar
Dá-me Tua graça
Para que eu possa prosseguir
E a Tua força pra que eu não possa desistir
Pois sou Teu, e Tu és meu
Só Tu és dono de mim.”

domingo, 11 de novembro de 2007

Do humilde sentir de si mesmo

1. Todo homem tem desejo natural de saber; mas que aproveitará a ciência, sem o temor de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros mas se descuida de si mesmo. Aquele que se conhece bem despreza-se e não se compraz em humanos louvores. Se eu soubesse quanto há no mundo, porém me faltasse a caridade, de que me serviria isso perante Deus, que me há de julgar segundo minhas obras?

2. Renuncia ao desordenado desejo de saber, porque nele há muita distração e ilusão. Os letrados gostam de ser vistos e tidos por sábios. Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma. E mui insensato é quem de outras coisas se ocupa e não das que tocam à sua salvação. As muitas palavras não satisfazem à alma, mas uma palavra boa refrigera o espírito e uma consciência pura inspira grande confiança em Deus.

3. Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado, se com isso não viveres mais santamente. Não te desvaneças, pois, com qualquer arte ou conhecimento que recebeste. Se te parece que sabes e entendes bem muitas coisas, lembra-te que é muito mais o que ignoras. Não te presumas de alta sabedoria (Rom 11,20); antes, confessa a tua ignorância. Como tu queres a alguém preferir-te, quando se acham muitos mais doutos do que tu e mais versados na lei? Se queres saber e aprender coisa útil, deseja ser desconhecido e tido por nada.

4. Não há melhor e mais útil estudo que conhecer-se perfeitamente e desprezar-se a si mesmo. Ter-se por nada e pensar sempre bem e favoravelmente dos outros, prova é de grande sabedoria e perfeição. Ainda quando vejas alguém pecar publicamente ou cometer faltas graves, nem por isso te deves julgar melhor, pois não sabes quanto tempo poderás perseverar no bem. Nós todos somos fracos mas a ninguém deves considerar mais fraco que a ti mesmo
( LIVRO 1 - CAPITULO II - Do humilde sentir de si mesmo )

Da imitação de Cristo e do desapego das vaidades do mundo

1. Quem me segue não anda nas trevas, diz o Senhor (Jo 8,12). São estas as palavras de Cristo, pelas quais somos advertidos que imitemos sua vida e seus costumes, se verdadeiramente queremos ser iluminados e livres de toda cegueira de coração. Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre a vida de Jesus Cristo.

2. A doutrina de Cristo é mais excelente que a de todos os santos, e quem tiver seu espírito encontrará nela um maná escondido. Sucede, porém, que muitos, embora ouçam frequentemente o Evangelho, sentem nele pouco enlevo: é que não possuem o espírito de Cristo. Quem quiser compreender e saborear plenamente as palavras de Cristo, é-lhe preciso que procure conformar à dele toda a sua vida.

3. Que te aproveita discutires sabiamente sobre a SS. Trindade, se não és humilde, desagradando, assim, a essa mesma Trindade? Na verdade, não são palavras elevadas que fazem o homem justo; mas é a vida virtuosa que o torna agradável a Deus. Prefiro sentir a contrição dentro de minha alma, a saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e as sentenças de todos os filósofos, de que te serviria tudo isso sem a caridade e a graça de Deus? Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade (Ecle 1,2), senão amar a Deus e só a ele servir. A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo tender ao reino dos céus.

4. Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas. Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada. Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que, depois, serás gravemente castigado. Vaidade, desejar longa vida e, entretanto, descuidar-se de que seja boa. Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura. Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso, a felicidade que sempre dura.

5. Lembra-te a miúdo do provérbio: Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de ouvir (Ecle 1,8). Portanto, procura desapegar teu coração do amor às coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis: pois aqueles que satisfazem seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus.
( LIVRO 1 - CAPÍTULO I - Da imitação de Cristo e do desapego das vaidades do mundo )

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

As Sete Meditações sugeridas por Santo Afonso Maria de Ligório


Domingo

Do fim do homem

1. Considera, cristão, que a existência que tens, de Deus a recebeste, criando-te á Sua imagem e semelhança, sem mérito algum da tua parte.Adaptou-te por filho nas almas salutares do Batismo; amou-te mais do que se fosse teu pai, e criou-te com o fim de O amares e servires nesta vida para depois O gozares na glória.de maneira que não nasceste nem deves viver para gozar, para ser rico poderoso, para comer, beber e dormir, como os irracionais, mas somente para amar ao teu Deus e ser dito eternamente.As criaturas foram postas por Deus á tua disposição para que te auxiliem a conseguir tão glorioso fim.Oh! infeliz de mim! que em tudo tenho pensado, menos no fim para que Deus me criou!Meu Pai, pelo amor de Jesus permiti que eu comece vida nova, inteiramente santa e em tudo conforme á vossa divina vontade!

2.Considera que na hora da morte sentirás grande remorso, se não te houveres dedicado ao serviço de Deus.Que aflição a tua quando, ao termo de teus dias naquela hora suprema, chegares a conhecer que todas as grandezas e prazeres, todas as riquezas e glórias não eram mais um pouco de fumo! Ficarás estupefato ao ver que por umas bagatelas, por verdadeiras frivolidades perdeste a graça de Deus e a tua alma, sem poder remediar o mal que fizeste e sem ter tempo para trilhar o bom caminho.Ó desesperação! Ó tormento! Então compreenderás quanto vale o tempo, mas já será tarde; quererás comprá-lo a troco do teu sangue, mas já não te é possível.Ó dia calamitoso para quem não tenha servido e amado a Deus!

3.Considera quanto se descura este fim tão importante.Pensa-se em acumular riquezas, em assistir a banquetes e divertimentos, em passar alegremente os dias; e não se pensa em servir a Deus, nem em salvar a alma.O fim eterno é considerado como coisa insignificante.Por isso uma parte dos cristãos, divertindo-se banqueteando-se e cantando, caem no inferno.Oh! se soubessem o que quer dizer Inferno...Ó homem, fazes tanto para te condenares, e nada queres fazer para te salvares?!Infeliz de mim! (Exclamava ao morrer o Secretário do Rei da França, Francisco I) Infeliz de mim!Para escrever as cartas do meu príncipe, gastei tanto papel; e nem sequer aproveitei uma folha para escrever nela os pecados e fazer uma boa confissão!Oxalá (dizia no mesmo transe Felipe III, Rei da Espanha) que em vez de ser Rei eu tivesse servido a Deus na solidão do deserto! Mas para que servem naquela hora semelhantes suspiros e lamentações, se não para maior desesperação? Aprende na experiência alheia a viver solicito da tua salvação, se não queres experimentar a mesma sorte.Não te esqueças de que quanto fazes, dizes ou pensas, estranho ao que Deus quer de ti, tudo é perdido.Eia pois! Já é tempo de mudar de vida.Quererás por ventura esperar.Para te desenganares, o momento da morte, quando estejas ás portas da eternidade, prestes a cair no inferno, e quando não haja lugar para emenda?Meu Deus, perdoa-me!Amo-Vos sobre todas as coisas.Arrependo-me sumamente de Vos ter ofendido.Maria, esperança minha, roga a Jesus por mim.Amém.

Fruto I. Lembrar-me-ei freqüentemente de Deus e de seus imensos benefícios agradecendo-Lhe de todo o meu coração.

Fruto II. Regularei e empregarei bem o tempo, dirigindo todas as minhas ações em ordem á glória de Deus.


Segunda-Feira

Da importância do fim do homem

1.Considera, ó homem, quanto tens a lucrar na consecução do teu grande fim.Tens a lucrar tudo, porque, se o conseguires, salvar-te-ás, serás para sempre ditoso, gozarás em teu corpo e em tua alma toda a sorte de bens; mas se o malograres, perderás a alma e o corpo, perderás o Céu, perderás a Deus; serás eternamente desgraçado, porque condenar-te-ás para sempre.É por isso que a ocupação das ocupações, a única e importante, a única necessária, é servir a Deus e salvar a alma.Não digas pois, cristão: Agora quero satisfazes meus apetites: depois consagrar-me-ei a Deus, e espero salvar-me.Esta esperança vã tem precipitado no inferno muitos que diziam isto mesmo, e agora estão irremediavelmente condenados.

Qual dos réprobos quereria em vida condenar-se? Nenhum por certo; mas Deus amaldiçoa o que peca fiado em sua misericórdia.Maldito o homem que peca com esperança.Tu dizes: Quero cometer este pecado, e confessa-lo-ei depois.Mas tens a certeza de que não te faltará tempo para isso? Quem de assegura que não morreras repentinamente depois do pecado? É certo que pecando perdes a graça divina: E é igualmente certo que voltarás a recuperá-la? Deus usa de misericórdia com os que O temem, mas não com os que O desprezam.Também não digas: É me indiferente confessar dois pecados ou três.

Não, porque bem pode suceder que Deus esteja disposto a perdoar-te dois, e não a perdoar-te três.Deus sofre com paciência, mas não sofre sempre.Quando se enche a medida, não só não perdoa mas, castiga o pecador com a morte, ou abandona-o, de maneira que este multiplicando os seus pecados precipitar-se-á no inferno.Castigo muito pior que a própria morte.Meu irmão que isto lhes, procede com cuidado, deixa a vida desordenada que levas e consagra-te ao serviço de Deus; teme não seja este o último aviso que Deus te manda; já bastam as ofensas que Lhe tens feito, e que então grande número te tem sofrido; teme não obter perdão para mais algum outro pecado mortal que cometas.Adverte que se trata da tua alma e da tua eternidade.Oh! a quantos não tem feito abandonar o mundo, internando-os nos claustros, nas grutas e desertos, este grande pensamento da eternidade!Ah! Pobre de mim!que vantagens advieram de tantos pecados por mim cometidos?O coração angustiado, a alma presa de dor, e o ter perdido a Deus e merecido o inferno.Ó meu Deus e meu Pai, convertei-me e fazei-me cativo do Vosso Amor.

2.Considera que este negócio é por desgraça o mais descurado de todos os negócios.Em tudo se pensa, menos na salvação.Para tudo há tempo, menos para servir a Deus.Dizei a um homem mundano que freqüente os Sacramentos, que faça ao menos meia hora de oração mental cada dia; responderás: Tenho filhos, tenho família, tenho interesses, tenho outras ocupações.Mas, desgraçado, não tens também tua alma para salvar?Pensas que tuas riquezas, teus filhos, teus parentes te poderão prestar algum auxílio na hora da morte ou livrar-te do inferno, se tens a desgraça de te comandares?Não presumas de poder conciliar Deus com o mundo, O céu o com pecado.A Salvação não é um negócio que se deva tratar com indolência:É preciso que faças violência a ti mesmo, e trabalhes, se queres ganhar a coroa imortal.Quantos cristãos contavam com poder mais tarde servir a Deus e deste modo salvar-se; e não obstante estão agora no inferno!Loucura tão rematada, pensar sempre no que tão depressa acaba, e tão raras vezes no que não terá fim!Ah! Cristão! olha por ti; pensa que em breve as de abandonar este mundo e entrar na eternidade.Pobre de ti se te condenares, porque jamais poderás remediar a tua desgraça.

3.Medita, cristão, e dize contigo mesmo:Tenho uma alma só: se a perco, tenho perdido tudo.Tenho uma alma só: se consigo conquistar o mundo, condenando-a, de que me servirá tão grande conquista?Se chego a ser um homem distinto, mas perco a minha alma, de que me servirá a minha distinção?Se acumulo riquezas, se argumento, os meus haveres, se engrandeço minha família, e não obstante perco a minha alma, de que me servirá tudo isso?Que aproveitaram as riqueza, os prazeres, as vaidades a tantos os que viveram no mundo, quando seus corpos são agora cinza e pó na sepultura e suas almas estão condenadas no inferno?Se pois, minha alma só a mim pertence, se não tenho mais que uma, e se, perdendo-a uma vez, a perco para sempre, devo pensar seriamente em salvá-la.É este um ponto de suma importância, porque se trata de ser sempre feliz ou sempre desgraçado.

No meio da minha confusão, meu Deus, confesso-O: até aqui tenho vivido como cego; afastei-me muito de Vós; não tenho pensado em salvar esta minha única alma.Salvai-me, ó meu Pai, pelo amor de Jesus Cristo.Resigno me a perder tudo, contanto que não vos perca a Vós, ó meu Deus.Maria, esperança minha, salvai-me com a vossa intercessão.

Fruto I. Preparar-me-ei prontamente para a morte com uma confissão.

Fruto II. Aplicar-me-ei com o empenho e fervor aos exercícios de piedade.


Terça-Feira

Do pecado Mortal

1.Considera como, tendo sido criado por Deus para amá-Lo, com infernal ingratidão te rebelaste contra Ele, tratando-O como inimigo, desprezando sua graça e amizade.Tu sabias que com aquele pecado Lhe causavas amaríssimo desgosto, e não obstante cometeste-O.Como procede quem peca? Volta a Deus as costas; deixa de O respeitar, levanta a mão para O ferir, e tortura seu divino coração.O homem, quando peca, diz a Deus com as suas obras: Afasta-Te de mim, não Te quero obedecer, nem servir, nem reconhecer por meu Senhor, nem ter por meu Deus.O meu Deus é o prazer, o interesse, a vingança.Tal foi a linguagem do teu coração, quando preferiste a Deus a criatura.Santa Maria Madalena de Pazzi não podia acreditar que um cristão foste capaz de cometer um pecado mortal com plena advertência.E tu, querido leitor, que dizes!Quantos pecados não tens cometidos já!Perdoa-me, meu Deus, e tende piedade de mim.Eu Vos ofendi, ó Bondade infinita.Detesto os meus pecados, amo-Vos, e arrependo-me de ter caído na torpeza de Vos injuriar, ó meu Deus, digno de infinito amor.

2.Considera como Deus te falava, quando pecavas: Meu filho, eu Sou o teu Deus, que te criei do nada, e remi com o meu sangue: Eu proíbo-te sob pena de incorreres no meu desagrado, que cometas este pecado.Mas tu, pecando, dizias a Deus: Senhor, eu não quero obedecer-Te, quero satisfazer meus apetites, e é me indiferente desagradar-Te, perder a Tua graça.Eis aqui, ó meu Deus, o que eu tenho feito tantas vezes.Como tendes podido sofrer-me?Oxalá eu tivesse morrido antes de Vos ter ofendido.De agora em diante não quero desgostar-Vos mais.Quero amar-Vos, ó Bondade infinita! Dai-me a perseverança, dai-me o Vosso santo Amor.

3.Considera que, quando os pecados chegam a um certo e determinado número, Deus abandona o pecador.Por isso, se te vires tentando a pecar de novo, ó meu irmão, não digas: Confessar-me-ei depois; porque, se Deus te fizer morrer então repentinamente, se Deus te abandonar, é fora de dúvida que não te confessaras; e em tal caso, que será de ti por toda a eternidade!Eis o motivo porque tantos homens se tem condenado.Estes também esperavam o perdão; mas a morte surpreendeu-os, e perderam-se.Teme que te sobrevenha a mesma calamidade, porque não merece misericórdia quem se serve da bondade de Deus para O ofender.Depois de tantos pecados que Deus te tem perdoado, deves com razão temer que não te perdoe mais, se reincidires no caminho do mal.Dai-Lhe graças por haver te esperado até agora, e faze neste momento o propósito firme de sofrer antes a morte que cometer outro pecado mortal, dizendo sinceramente: já bastam, Senhor, as ofensas que Vós tem feito; a vida que me resta não a quero eu empregar em ofender-Vos, a Vós que O não mereceis.Quero empregá-la só em amar-Vos e em chorar as ofensas que vos tenho feito.Arrependo-me, meu Jesus, de todo o meu coração; quero amar-Vos; dai-me forças para Vos amar.Maria, minha Mãe, auxiliai-me.

Fruto I. Farei freqüentemente atos de arrependimentos, dizendo: Misericórdia, ó meu Jesus; arrependo-me de Vos ter ofendido, peço-Vos perdão para os meus pecado.

Fruto II. Examinarei se há em mim algum afeto desordenado que possa afastar-me de Deus, e desterra-lo-ei do coração.


Quarta-Feira

A Morte

1.Considera que esta vida há de acabar.Já está pronunciada a sentença; tens de morrer.A morte é certa; a hora, porém, é incerta.O que será necessário para morrer?Um ataque apopléctico, a ruptura de uma veia no peito, um catarro sufocante, um vomito de sangue, a mordedura de um animal venenoso, uma febre, uma pneumonia, uma chaga, uma inundação, um terremoto, um raio basta para te tirar a vida.A morte te assaltará, quando menos pensares.Quantos se deitaram à noite com saúde, e pela manhã foram encontrados mortos!E não poderá acontecer-te o mesmo a ti?Dos que tem morrido repentinamente, nenhum esperava morrer deste modo; e não obstante assim morreram.Se estavam em pecado, onde estão agora, e onde estarão por toda a eternidade?Seja, porém, como for, é indubitável que chegará uma ocasião em que anoitecerá para ti, e não amanhecerá, ou antes, amanhecerá, e não anoitecerá."Virei como ladrão" diz Jesus Cristo; o que quer dizer: quando menos pensares e ás escondidas.Avisa-te com tempo este teu amante Senhor, porque deseja a tua salvação.Corresponde, pois ao teu Deus; aproveita o aviso; prepara-te para bem morrer, antes de chegar a morte.Então não é tempo de preparação, porque já deve estar feita.É fora de dúvida que hás de morrer.Há de terminar para ti a cena este mundo, e não sabes quando.Quem sabe se será dentro de um ano ou dentro de um mês?Quem sabe se amanhã mesmo ainda estarás vivo?Meu Jesus, ilumine-me, e perdoe-me.

2.considera que na hora da morte assistido de um sacerdote, que fará a encomendarão da tua alma, rodeado de parentes que por ti chorarão, com o Crucifixo á cabeceira e a vela benta aos pés, já prestes a passar á eternidade.Terás a cabeça dolorida, os olhos amortecidos, a língua abrasada, a garganta cerrada, o peito opresso, o sangue gelado, as carnes gastas e o coração transpassado de dor.Ao morrer deixarás tudo; pobre e indigente serás lançado a um sepulcro, e ali apodrecerás.Os vermes e outros animais imundos roerão tuas carnes, e de ti ficarão apenas alguns ossos descarnados, um pouco de pó hediondo e nada mais.Abre uma sepultura, e vê a que ficou reduzido aquele homem opulento, aquele avaro, aquela mulher vaidosa.Assim termina a vida!Na hora da morte ver-te-ás rodeado de demônios que te apresentarão o sudário dos teus pecados, cometidos desde a tua infância.Agora o demônio, para induzir-te a pecar, encobre e desculpa as tuas faltas.Diz que é pequeno mal aquela amizade, aquela vaidade, aquele prazer, aquele rancor que alimentas em teu peito; que não há intenções criminosas naquelas conversações.Mas no momento da morte patenteará a enormidade dos teus pecados; e á luz daquela eternidade em que brevemente terás de entrar, conhecerás a gravidade da pena em que incorreste ofendendo a um Deus infinito.Apressa-te, enquanto é tempo, a remediar o mal que tens feito.

3.Considera que a morte é um momento de que depende a eternidade.Encontra-se o homem já próximo a expirar, e por conseguinte prestes a entrar em uma das duas eternidades.Sua sorte depende daquele último suspiro, imediatamente ao qual a alma é salva ou condenada para sempre.ó momento!Ó último suspiro!ó momento de que depende uma eternidade de glória ou de pena!Uma eternidade sempre feliz ou sempre desditosa!Uma eternidade de toda a espécie de bens ou de males!Uma eternidade, enfim, de Paraíso ou de Inferno! O que quer dizer: que, se naquele momento te salvares, em vez da desventura estarão sempre ao teu lado o contentamento e a felicidade; mas, se errares o golpe, e te condenares, serão teus companheiros inseparáveis e cruéis a aflição e o desespero.Na morte compreenderás o que quer dizer glória, Inferno, Pecado, Deus ofendido, lei de Deus desprezada, pecados calados na confissão, roubo não restituído. "miserável de mim!dirá o moribundo, daqui a poucos momentos hei de comparecer diante de Deus.E quem sabe a sentença que me tocará!Para onde irei?Para o Céu, ou para o inferno? A gozar com os Anjos, ou a arder com os condenados?Serei ou filho de Deus, ou escravo do demônio?Ai de mim!Sabê-lo-ei dentro em pouco, e aonde entrar pela primeira vez ali permanecerei eternamente.Ah!Daqui a poucas horas, daqui a poucos momentos que será de mim?Que será de mim, se não reparar aquele escândalo, se não restituir aquele furto, aquela fama, se não perdoar de coração ao meu inimigo, se não me confessar bem?".Então detestarás mil vezes o dia em que pecaste, o prazer que desfrutaste, a vingança que tomaste! mas demasiado tarde e sem fruto, porque o farás simplesmente por temor do castigo, e não por amor de Deus. - Ah, Senhor!Desde este momento me converto a Vós: não quero esperar pelo momento em que a morte chegue; desde já Vos amo, abraço, e quero morrer abraçado Convosco.Maria, minha Mãe, fazei que eu morra sob o manto da vossa proteção; auxiliai-me naquele derradeiro transe.

Fruto I.Encararei com desprezo a vaidade do mundo e de meu corpo, origem de tantos pecados que tenho cometido.

Fruto II.quando o demônio me tentar para ofender a Deus, direi prontamente: "Considera que hás de morrer".


Quinta-Feira

Sobre o Juízo

1.Considera que, logo que a alma tenha saído do corpo, será conduzida ao tribunal de Deus para ser julgada.O Juiz é um Deus Onipotente, ultrajado por ti, e sumamente irado.Os acusadores são os demônios, teus inimigos; o processo teus próprios pecados; a sentença é inapelável; a pena é o inferno.Ali não há companheiros, nem parentes, nem amigos; a causa será resolvida entre Deus e a tua alma.Então compreenderás a hediondez de teus pecados, e não poderás ser tão indulgente com eles, como agora o és.Responderá por teus pecados de pensamentos, palavras, obras, omissão, escândalo, respeitos humanos: tudo se há de pesar naquela grande balança da justiça divina, e se fores encontrado réu de culpa grave, uma só que seja, estarás perdido.Meu Jesus e meu Juiz, perdoai-me antes de me fazer comparecer em vosso tribunal!.

2.Considera que a justiça divina há de julgar a todos os homens no vale de Josaphat, quando no fim do mundo ressuscitar os corpos para receberem juntamente com as almas prêmio ou castigo, segundo os seus méritos.

Reflete que, se te condenares, tornarás a unir-te a este mesmo corpo, que servirá de prisão eterna á tua alma desgraçada.Naquele encontro desagradável a alma amaldiçoará o corpo, e o corpo por sua vez amaldiçoará a alma; de maneira que a alma e o corpo, que agora correm de mãos dadas em busca de prazeres lícitos, unir-se-ão, em que lhes pese, depois da morte, para ser verdugos um do outro.Ao contrário, se te salvares, esse teu corpo ressuscitará formosíssimo, impassível e resplandecente; e assim irás, em corpo e alma, gozar d vida bem-aventurada.Tal será o fim da cena deste mundo!Afundar-se-ão no nada todas as grandezas, prazeres e pompas mundanas.Tudo acabará: só ficarão as duas eternidades, uma de glória e outra de pena, uma ditosa e outra infeliz, uma de gozos, e outra de tormentos: no céu os justos, no inferno os pecadores.Desgraçado então o que tenha feito do mundo o seu ídolo, e pelos prazeres miseráveis desta terra tenha perdido tudo, alma, corpo, bem-aventurança e Deus!.

3.Considera a sentença eterna.O Juiz eterno, Jesus Cristo, voltar-se-á primeiro contra os réprobos, a quem dirás: "Ingratos, tudo se acabou para vós!Chegou a minha hora, hora de verdade e justiça, hora de indignação e vingança!Criminosos, amastes a maldição; caia sobre vós: sede malditos na eternidade: ide para o fogo eterno, privados de todos os bens e sob o peso de todos os males".Em seguida voltar-se-á para os escolhidos e dirá: "Vinde vós, meus filhos queridos, vinde possuir o reino dos céus, que vos está preparado.Vinde não já para levar a cruz em pós de Mim, mas para partilhar da minha coroa.Vinde como herdeiros de minhas riquezas e companheiros de minha glória.Vinde cantar eternamente minhas misericórdias.Vinde da terra do exílio á pátria, da miséria ao gozo, das lágrimas á alegria, do sofrimento ao descanso eterno".Meu Jesus, eu espero ser também um destes filhos afortunados.Amo-Vos sobre todas as coisas, abençoai-me desde este momento, e abençoai-me também vós, ó Maria minha querida Mãe!.

Fruto I.Farei todas as minhas ações como se devesse comparecer, na ocasião em que as executar, perante o tribunal divino a dar conta delas.

Fruto II.Exercitar-me-ei em obras de misericórdia espirituais e corporais, porque ao que as praticar prometeu Deus uma benção eterna no dia do juízo.


Sexta-Feira

Sobre o Inferno

1.Considera que o inferno é uma prisão hedionda, cheia de fogo.Neste fogo estão submersos os condenados.Neste abismo de fogo que os rodeia por todos os lados, têm chamas na boca, nos olhos, em todas as partes do corpo.Cada sentido tem seu sofrimento próprio: os olhos são atormentados pelo fumo e pelas trevas, e horrorizados pela vista dos outros condenados e dos demônios; os ouvidos ouvem dia e noite contínuos clamores, prantos e blasfêmias.O olfato é atormentado pelo cheiro nauseabundo daqueles inumeráveis corpos corrompidos, e o paladar por ardentíssima sede e fome insaciável sem poder obter uma gota de água nem uma migalha de pão.Por isso aqueles encarcerados infelizes, abrasados pela sede, devorados pelo fogo, torturados por toda a espécie de sofrimentos, choram, clamam, desesperam-se; mas não há nem haverá quem os alivie e console.Ó inferno, inferno!Quantos há que se recusam a crer em ti até o momento em que caem em teus abismos!E tu, querido leitor, que dizes?Se houvesses de morrer agora, para onde irias?Tu, que não podes suportar o ardor de uma centelha de fogo que te salta á mão, poderás estar em um abismo de fogo que te abrase, abandonado de todos por toda a eternidade e sem lenitivo algum?

2.Considera em seguida a pena que tocará ás potências da alma.A memória será sempre atormentada pelos remorsos da consciência.Tal é aquele verme que sem cessar roerá o condenado ao pensar que se perdeu voluntariamente e por um prazer envenenado.Ó Deus!Como avaliará então aqueles momentos de prazer, depois de cem, depois de mil milhões de anos no inferno?Este verme recordar-lhe-á o tempo que Deus lhe deu para expiar suas culpas, os meios que lhe proporcionou para salvar-se, os bons exemplos dos companheiros, os propósitos feitos mas ineficazes.Então verá que já não há remédio para a sua eterna ruína.Ó Deus!Ó Deus!E como estes pensamentos agravarão o seu penar!A vontade estará sempre contrariada: nunca alcançará coisa alguma do que deseja, e sempre terá o que aborrece, isto é, todos os tormentos.O entendimento conhecerá o bem enorme que perdeu: a bem-aventurança e Deus.Meu Deus!meu Deus! Perdoai-me pelo amor de Jesus Cristo, vosso Filho.

3.Pecador, a quem por agora é indiferente perder o céu e perder a Deus, quando vires os bem-aventurados triunfarem e gozarem no reino dos céus, então tu, qual animal hediondo, serás excluídos daquela pátria ditosa e privado da visão beatífica de Deus, da companhia de Maria Santíssima, dos Anjos e dos Santos; conhecerá, ai!Tua espantosa cegueira, e dirás desesperado:"Ó Paraíso de eternas delícias: Ó Deus! Ó bem infinito! Já não sois nem jamais sereis meus! Desgraçado de mim!..." Eia, meu irmão, faze penitência, muda de vida, não te guardes para quando o tempo te faltar.Entrega-te a Deus, principia a amá-lo deverás.

Roga a Jesus, roga a Maria Santíssima que tenham piedade de ti.

Fruto I.Descontarei com alguma mortificação as penas que no inferno tenho merecido.

Fruto II.Quando experimentar algum dissabor, incomodo ou dor, direi a mim mesmo: "Lembra-te que tens merecido cair, e devias ser precipitado no inferno", e tudo sofrerei com paciência.


Sábado

Da Eternidade da Penas

1.Considera que o inferno não tem fim: padecem-se nele todas as penas, e toda são eternas.De maneira que passarão cem anos daquelas penas, passarão mil, e o inferno estará como se então principiasse! Passarão cem mil anos, cem milhões, mil milhões de anos e de séculos, e o inferno continuará a ser o mesmo que no primeiro dia.Se um anjo levasse agora a um condenado a notícia de que Deus queria tirá-lo do inferno quando houvessem decorrido tantos milhões de séculos quantas são as folhas das árvores, as gotas de água do mar e os grãos de areia da terra; tu ao sabê-lo ficarias atônito e horrorizado diante desse prodigioso número de séculos passados nos tormentos.E não obstante é indubitável que aquele condenado acolheria tal notícia com mais satisfação do que tu, se te anunciassem que tinhas sido feito monarca de um grande reino.Sim; porque diria o condenado:"É verdade que hão de decorrer tantos séculos; chegará, porém, um dia em que hão de acabar".Mas ai! passarão todos esses séculos e o inferno estará em seu princípio; multiplicar-se-ão tantas vezes quantas são as gotas de água, os grãos de areia e as filhas das árvores, e o inferno não terá diminuído absolutamente nada.Qualquer condenado contentar-se-ia com que Deus lhe aumentasse suas penas e as prolongasse quanto Lhe aprouvesse, com tanto que afinal tivessem um termo: mas este termo não o terão jamais.Se pudesse ao menos o pobre condenado enganar-se a si mesmo, iludir-se e dizer: "Quem sabe?Talvez Deus um dia tenha piedade de mim, e me tire do inferno!" Mas não: o réprobo terá sempre diante de seus olhos gravada a sentença da sua condenação eterna e não poderá deixar de dizer: "Todas estas penas que sofro agora, este fogo, estas tribulações, estes clamores não acabarão jamais?Não.E quanto tempo durarão?Durarão sempre.Sempre!" Ó sempre! Ó jamais! Ó eternidade! Ó inferno! Como?Os homens crêem em ti e pecam?E continuam sempre vivendo no pecado?

2.Meu irmão, acautela-te; pensa que também para ti há inferno, se pecares.Já está acesa a teus pés aquela formidável fogueira, e agora mesmo, ai! quantas almas estão caindo nela!Reflete que, se tu também lá caíres, não poderás jamais sair.Se alguma vez mereceste o inferno, dá graças a Deus por não te haver precipitado nele, e prontamente remedeia o mal que fizeste, enquanto te é possível.Chora os teus pecados, põe em execução os meios apropriados á tua salvação, confessa-te freqüentemente, lê este ou outro livro espiritual todos os dias, como todos os dias em honra de Maria, por quem deves ter particular devoção, recitarás o Rosário, e jejuarás todos os sábados; resiste ás tentações invocando repetidas vezes os doces nomes de Jesus e Maria, foge das ocasiões de pecar, e se além disto Deus te dá vocação para abandonares o mundo, faze-o prontamente.Tudo quanto se faça para evitar uma eternidade de penas é pouco, é nada.Nunca serão exageradas as nossas precauções para nos assegurarmos uma eternidade feliz.Vê quantos anacoretas, para se livrarem do inferno, se têm internado nas grutas e nos desertos!E tu que fazes, depois de ter merecido tantas vezes o inferno?Que fazes?Não vês que a tua condenação está iminente?Volta-te para Deus e dize-lhe: "Eis-me aqui, Senhor: quero fazer tudo o que de mim quiserdes".Maria, auxiliai-me.

Fruto I.Lembrar-me-ei desta verdade freqüentemente: Tudo acaba e depressa, exceto a eternidade.

Fruto II.Se sentir alguma dificuldade em fazer o bem ou em resistir ao mal, direi a mim mesmo: tudo é pouco para adquirir a felicidade eterna.

OBS: "Retirado do livro Jardim de Devoção para os Bons Cristãos - por - Santo Afonso Maria de Ligório"

Sede Santos


"Deus nos escolheu Nele, antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados em sua presença, no amor"."a Santíssima Trindade nos criou a sua imagem de acordo com o exemplar eterno próprio de cada um que Ela possuía em seu seio antes que o mundo existisse", naquele começo sem começo de que fala Bossuet com base em São João; "In principio erat Verbum" (Jo 1,1), "no princípio era o Verbo" pode-se acrescentar: no começo era o nada, porque Deus em sua eterna solidão, já nos trazia em seu pensamento."O Pai contemplasse a si mesmo no batismo de sua fecundidade, e eis que, pelo mesmo ato de se compreender, Ele gera outra pessoa, o Filho, seu Verbo Eterno.O tipo de todas as criaturas, que ainda não tinham saído do nada, residia eternamente Nele, e Deus as via e as contemplava no seu tipo, isto é, em si mesmo.Esta vida eterna que nossos tipos possuem sem nós em Deus, é a causa de nossa criação.

"Nossa essência criada exige o reencontro com seu princípio.O Verbo, esplendor do Pai, é o tipo eterno no qual são desenhadas as criaturas no dia de sua criação.Eis porque Deus quer que, livres de nós mesmos, elevemos os braços para nosso exemplar e que o possuamos, subindo acima de toda as coisas em direção de nosso modelo.Esta contemplação abre horizontes inesperados a alma e ela já possui de certo modo a coroa a que aspira.As imensas riquezas que Deus possui por natureza, nós podemos possuir pela virtude do amor, por sua residência em nós, por nossa residência Nele.É por esta virtude de amor imenso que nós somos atraídos para o fundo do santuário íntimo, onde Deus imprime em nós uma certa imagem de sua majestade.Portanto, é graças ao amor e pelo amor, como diz o Apóstolo, que podemos ser imaculados e santos em presença de Deus e cantar com Davi: "Serei sem mancha e me defenderei da profunda iniqüidade que está em mim".

Segunda oração.

"Sede santos porque eu sou santo".É o Senhor quem fala assim."Qualquer que seja o nosso modo de vida ou o habito que nos cobre, cada um de nós deve ser o santo de Deus.Quem é, pois, o mais santo?É aquele que mais ama, aquele que mais olha para Deus e que atende mais plenamente as exigência de seu olhar".Como satisfazer as exigências do olhar de Deus, senão mantendo-se simples e amorosamente voltado para Ele, afim de que Ele possa espelhar sua própria imagem, como o Sol se espelha através de um puro cristal."Façamos a nossa imagem e semelhança: Tal foi o grande desejo do coração de Nosso Deus"."Sem a semelhança que vem da graça, a condenação eterna nos espera.Desde que Deus nos vê capazes de receber sua graça, sua livre bondade está pronta a nos dar o dom que nos assemelha a Ele.Nossa aptidão para receber sua graça depende da integridade interior com a qual no movemos para Ele.E Deus, comunicando-nos seus dons, pode então dar-se a nós, imprimir em nós sua semelhança, absolver-nos e libertar-nos".

"A mais alta perfeição nesta vida, diz um piedoso autor, consiste em ficar de tal modo unido a Deus, que a alma com todas as suas faculdades e suas potências fique recolhida em Deus; que suas afeições unidas nas alegrias do amor não encontrem descanso senão na posse do criador.A imagem de Deus imprensa na alma é com efeito constituída pela razão, pela memória e pela vontade.Enquanto estas faculdades não trazem a imagem perfeita de Deus, elas não se assemelham a Ele como no dia da Criação.A forma da alma é Deus, que deve imprimir-se ai como o carimbo na cera, como a marca em seu objeto.Ora, isto só se realiza plenamente se a razão estiver plenamente esclarecida pelo conhecimento de Deus; se a vontade estiver presa ao amor do Bem soberano; se a memória estiver totalmente absolvida na contemplação e no gozo da eterna felicidade.E como a glória dos bem-aventurados não é outra coisa senão a perfeita posse desse estado, fica claro que a posse começa desde bens constitui a perfeição nesta vida.Para realizar este ideal, é preciso manter-se recolhido dentro de si mesmo, manter-se em silêncio na presença de Deus, enquanto a alma se abisma, se dilata, se inflama, se derrete Nele com uma plenitude sem limites".

.Fonte: Elisabete da Trindade - Obras completas

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Uma espiritualidade do coração


"Rezar é descer com a mente ao coração e ali ficar diante da face do Senhor, onipresente, onividente dentro de nós" (Teófono, místico russo).

Coração: dia após dia, a cada hora, a cada segundo, ele pulsa em nosso peito. Mesmo quando dormimos o coração está fazendo o seu trabalho. Quando ameaça parar, as coisas complicam e a vida corre risco. Nele, há um princípio vital que nos anima, que faz cada órgão do corpo funcionar.

O ritmo e o pulsar - Não há como falar de uma espiritualidade do coração sem referir-se a esse órgão essencial para a vida. Ele tem ritmo e é responsável por bombear o sangue para todo o organismo. O ritmo da espiritualidade do coração é marcado pelo debruçar-se terno e contemplativo sobre a vida em todas as suas manifestações. Seu lugar privilegiado é o universo. É dali que tira o alimento para sua meditação.

Quem vive uma espiritualidade centrada no coração, sente-o por vezes acelerado: ou porque se extasia diante de alguma experiência de gratuidade ou porque se condói diante da dor presente no mundo. "Jesus, vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estava enfraquecida e abatida como ovelhas sem pastor" (Mt. 9, 36).

Viver a partir do coração é bombear vida para todos os membros do Corpo de Cristo e para toda a humanidade. O coração de quem vive assim está sintonizado com aquele Divino Coração, no qual pulsa todo o universo, e por isso pode espalhar amor, ternura e compaixão por onde passa ou, melhor até dizer, onde está, pois não há limites para o alcance desse "divino sangue". Onde houver alguém necessitado de vida, haverá um pouco dessa transfusão. Quanto mais forem as pessoas identificadas com essa espiritualidade, mais vasos intercomunicantes e mais vida se espalhará pelo planeta.

As possíveis cardiopatias - A espiritualidade do coração identifica também as possíveis cardiopatias que ameaçam a qualidade de vida de quem a ela é chamado e a quer viver. Uma delas é a infidelidade, outra a falta de perdão. A infidelidade fere o coração e pode causar uma hemorragia que, se não for medicada, pode levar à morte. O tratamento para essa cardiopatia chama-se conversão. Quanto à falta de perdão e às mágoas, constituem uma obstrução das artérias que levam e trazem a energia amorosa dos outros e de Deus. Para essa cardiopatia o remédio eficaz chama-se perdão: pedir perdão, doar perdão, receber perdão.

O Coração de Jesus - De onde brota essa espiritualidade do coração? Da fonte mesma que é o Coração de Jesus, aberto por nós e para nós. É preciso, portanto,não somente uma devoção ao Coração de Jesus; é preciso tirar dele a prática que ilumina a vida.

O Papa Pio XII, em sua Encíclica sobre o Coração de Jesus (Haurietis aquas in gáudio), mostra-nos como o Coração do Mestre é fonte contínua para vivermos uma espiritualidade centrada no coração: "O adorável coração de Jesus Cristo pulsa de amor ao mesmo tempo humano e divino desde que a virgem Maria pronunciou aquela palavra magnânima: "Fiat". Esse mesmo amor movia o seu coração nas suas contínuas excursões apostólicas, quando realizava aqueles inúmeros milagres, quando ressuscitava os mortos ou restituía a saúde a toda sorte de enfermos, quando sofria aqueles trabalhos, suportava o suor, a fome e a sede; nas vigílias noturnas passadas em oração a seu Pai amado; e, finalmente, nos discursos que pronunciava e nas parábolas que propunha, especialmente naquelas que tratam da misericórdia, como a da dracma perdida, a da ovelha desgarrada e a do filho pródigo. Nessas palavras e nessas obras, como diz Gregório Magno, manifesta-se o próprio coração de Deus. 'Conhece o coração de Deus nas palavras de Deus, para que com mais ardor suspires pelas coisas eternas'".

Autor: Pe. Sérgio Luiz e Silva

Ser santo é deixar a Luz passar!


Descobrir a vida de alguém que se santificou é deixar-se encantar por quem muito concretamente fez do Evangelho sua própria vida.

Lembro-me de meu mestre de noviciado, Pe. Afonso Paschotte, redentorista da Província de São Paulo, falecido alguns anos atrás, que usou uma conceituação de santidade que, pela sua simplicidade e clareza, mais me tocou até hoje: Ser santo é deixar a luz passar!

Como um multicolorido vitral

Ele dava, então, como exemplo, o que acontece com o vitral de uma igreja. Durante o dia, a luz incide sobre ele e a tons multicoloridos banham o interior do templo. À noite, quando as luzes se acendem no seu interior, quem passa por fora é que é brindado com as cores do vitral. Quanto mais limpo for o vitral, mais sua luz poderá passar por ele sem obstáculos.

A santidade é como a luz que vem do sol: é uma dádiva! O vitral não produz a luz, ele a deixa passar. Sem a luz o vitral não se destaca. A luz é a Graça de Deus vindo ao encontro do homem e da mulher. Como acontece com o vitral, que quanto mais límpido facilita a luz por ele, o que podemos fazer, é manter-nos abertos e predispostos para que a Graça divina inunde nosso interior.

À noite, o fenômeno se inverte: havendo agora luz dentro do templo, ela se irradia através dos vitrais, enchendo de beleza e serenidade o ambiente ao redor. Quando a Graça de Deus está presente na pessoa, de seu interior mana luz para iluminar a escuridão de nosso mundo, tão sofrido e conflituoso. Aqueles que estão próximos desta pessoa ficam também iluminados.

Um chamado a todo discípulo de Jesus

Os santos, muito especialmente, deixaram essa luz se irradiar através deles, cumprindo aquilo que diz Jesus no Evangelho: “Assim, brilhe a vossa luz diante dos homens” (Mt. 4, 16ª). Mas este é um chamado a todo cristão, pois, pelo Batismo, todos somos chamados à santidade.

Não pense em coisas excêntricas ou extraordinárias. A santidade é feita da irradiação da luz divina no meio onde você está. Naqueles que chamamos “santos”, essa luz é tão intensa que irradia-se de forma até mesmo miraculosa. Os milagres são apenas uma conseqüência da luz que neles está. O importante não são os milagres que vivenciam, mas a ação da Graça em suas almas. Isso pode e deve acontecer com cada um de nós, discípulos de Jesus. E essa luz não está restrita a uma época determinada. Até hoje sentimos a irradiação da santidade de homens e mulheres de todos os tempos na história da Igreja.

Assim é com São Geraldo. Ele era o santo que “brincava com Deus”, tanta era sua familiaridade com Ele. Muitos milagres o seguiram em sua curta vida entre nós (morreu aos vinte e nove anos). Mas não é isso o que mais se destaca em sua história. Um dos traços mais marcantes na vida desse humilde e grande irmão redentorista foi sua dedicação aos pobres.

Aprendendo com Geraldo a olhar o pobre


Ser devoto de São Geraldo é aprender, entre outras coisas, a olhar o pobre da mesma forma como ele olhou. E ele os olhava como os preferidos de Deus, seus irmãos. Para eles, em especial, dedicou sua vida missionária.

Em um dos retiros que tivemos como Província Redentorista, o pregador, Pe. Bernardo Holmes, redentorista de Fortaleza, contou-nos uma história:

“Nós estávamos chegando à região de Parque São Miguel, periferia de Fortaleza, quando um senhor veio à nossa casa, trazendo um pouco de farinha e alguns tomates, até mesmo meio passados. Perguntei o seu nome e ele disse se chamar Sebastião Esmoler. Sim, “esmoler”, porque vivia de esmolas. Com isso, ele sustentava sua família. Ele nos disse: - Como os senhores estão vindo aqui viver entre a gente, eu vim trazer um pouquinho do que recebo para partilhar com vocês.

“Aos poucos fui travando amizade com ele e sempre fazia um café para ele tomar. Um dia ele disse: - Sabe, seu padre, pedindo esmolas a gente aprende muito sobre as pessoas! Há gente que não vê a gente. Há gente que vê, mas faz que não vê a gente. Há gente que vê a gente e desvia da gente: bate a porta, passa para o outro lado da calçada... Há gente que vê a gente e julga a gente: vai trabalhar vagabundo!... Há gente que vê a gente e usa a gente: para aliviar a sua consciência ou para se mostrar. E há gente que vê a gente como gente: nem tanto porque dá alguma coisa, mas porque olha nos olhos da gente como gente!”

Essa foi a lição dada pelo Francisco e ensinada por Pe. Bernardo. E você, como vê e age com os mais pobres? Como você deixa a luz passar através de você?

Autor: Pe. Sérgio Luiz e Silva

Vivência:

Vivência:

Inspiração: “...prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo.” (Flp 3, 13-14)

Atitude: Prepare bem o seu futuro! Cuide da saúde. Estude. Faça amigos. Sorria. Ore bastante. Não antecipe preocupações desnecessárias.

Diga para si mesmo: Porque meu Senhor vive, posso crer no amanhã. Porque Ele vive, temor não há. Minha vida está nas mãos do meu Jesus, que vivo está!
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Inspiração: “É Jesus a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava... Ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade.” (Ef 2, 14.15b-17)

Reflexão: Passados dois mil anos da vinda de Jesus e sua mensagem de paz e transformação da pessoa humana e suas relações, o mundo continua em conflito, sem vivenciar a mensagem de amor e perdão que Jesus anunciou. Ele já realizou a sua paz para a humanidade. Ele fez, de fato, “de dois povos um só”.

O real muro que separa as pessoas já foi destruído, quando Ele deu por nós a sua vida na cruz. Mas a ambição e o orgulho enraizado nas culturas continuam separando os povos entre pobres e ricos, além das ideologias que geram tanta morte.

Viver numa perspectiva reconciliadora é também engajar-se em oração para que os povos vivam em paz, numa postura de diálogo e superação dos pontos de conflito, buscando aquilo que une e não o que divide. Não haverá reconciliação entre os povos, enquanto houver o imenso abismo que separa as nações mais ricas do mundo daquelas miseráveis. Reconciliação mundial só é possível com justiça.

Atitude: Ofereça sua oração neste mês, em especial, pelos países que estão em guerra civil ou em conflito com outros povos. Mesmo que você não saiba quais são estes países, sinta-se participante desta mesma obra de reconciliação. Afinal, estamos todos embarcados nesta mesma “nave” que viaja pelo universo: nosso planeta terra.

Diga para si mesmo: Eu coopero conscientemente para que os povos se reconciliem, promovendo a paz ao meu redor!

Mysterium fidei!

Mysterium fidei! Se a Eucaristia é um mistério de fé que excede tanto a nossa inteligência que nos obriga ao mais puro abandono à palavra de Deus, ninguém melhor do que Maria pode servir-nos de apoio e guia nesta atitude de abandono. Todas as vezes que repetimos o gesto de Cristo na Última Ceia dando cumprimento ao seu mandato: «Fazei isto em memória de Mim», ao mesmo tempo acolhemos o convite que Maria nos faz para obedecermos a seu Filho sem hesitação: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2, 5). Com a solicitude materna manifestada nas bodas de Caná, Ela parece dizer-nos: «Não hesiteis, confiai na palavra do meu Filho. Se Ele pôde mudar a água em vinho, também é capaz de fazer do pão e do vinho o seu corpo e sangue, entregando aos crentes, neste mistério, o memorial vivo da sua Páscoa e tornando-se assim “pão de vida”».

S.S. João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, n.54.